Wilmar Klein
Wilmar Klein
Os prazeres da videogarimpagem
Aquela discreta prateleira da locadora ou da revenda pode ocultar um filme B genial
Como você vive reclamando (e com razão) que na TV aberta não tem nada que preste, que na TV a cabo só tem reprise e, para piorar as coisas, é época de Jingle Bells, sidra, panetone e daqueles horríveis especiais de fim de ano, que tal passar algumas semanas no interior da Mongólia ou do Burundi? Ou, então, enfurne-se numa locadora ou revenda de vídeos e desfrute do perverso prazer de descobrir nos mais recônditos e empoeirados escaninhos digo, naqueles cantos pouco visitados das prateleiras dos fundos da loja B movies com as (mais ou menos) prestigiosas assinaturas de Roger Corman, Dario Argento e George Romero, e trash movies de Herschell Gordon Lewis, Fred Olen Ray e Charles Band, que, de tão ruins, são bons. Encha com essas fitas umas duas sacolas e, no aconchego do seu lar, após preparar uma jarra de vinho de jurubeba com capilé e um belo prato de rolmops, dê início à maratona.
Mas, caso você não saiba exatamente o que deve procurar, anote as sugestões abaixo, que espero irão lhe garantir momentos de bom horror e entretenimento:
Paura Nella Cittá Dei Morti Viventi, isto é, Pavor na Cidade dos Zumbis (1982), de Lucio Fulci, com o canastrão Christopher George, Katherine MacColl (deve ser pseudônimo) e Carlos De Mejo. Pois bem... durante uma sessão espírita, uma jovem com poderes mediúnicos tem visões de uma cidade que será dominada pelos mortos-vivos. Daí, com a ajuda de um repórter (com quem garantirá as inevitáveis cenas de sexo), tentará impedir que a profecia aconteça. Produção tosca, narrativa incompetente. Um festival de cadáveres putrefactos, vermes, miolos e vômitos. Lindo!
Banho de Sangue (Blood Feast, EUA, 1963), de Herschell Gordon Lewis, com Thomas Wood e Mal Arnold. Na história tem um antiquário cuja especialidade é assassinar e mutilar garotas gostosonas em sacrifício a uma deusa egípcia. Um daqueles filmes para toda a família (a família Manson). Gordon Lewis, junto com o nosso José Mojica Marins (Zé do Caixão), foi um pioneiro dos splatter movies, gênero em que o horror se mistura à nojeira explícita. Vá devagar no rolmops.
A Catedral (The Church, Itália, 1989), de Michele Soavi, com Hugh Quarshie, Tomas Arana e Barbara Cupisti. Inventam de restaurar uma igreja construída sobre o local onde, na Idade Média, bruxas foram executadas e o resultado dessa iniciativa cultural é libertar um bando de demônios que só estava esperando a chegada dos pedreiros. Não é o melhor roteiro escrito pelo mestre Dario Argento, mas a ambientação e a fotografia soturna são ótimas. De quebra, uma trilha sonora melhor do que o filme, incluindo duas composições de Philip Glass. Um luxo!
Breeders - Ameaça de Destruição (Breeders, 1986) e Robot Holocaust (idem, 1987), ambos de Tim Kincaid. No primeiro rodado em apenas dez dias alienígenas que vivem nas fundações do Empire State Building (aquele em cujo topo King Kong desafiou a Força Aérea americana) resolvem procriar e sequestram seis belas top models exibicionistas (detalhe: top models virgens, coisa que você só vê em filme trash). Em Robot Holocaust, uns fantoches de mão fazem as vezes de vermes gigantes que ameaçam a Terra. Nem Ed Wood pensaria nisso. (Ah, sim... se encontrar Mutant Hunt - O Exterminador de Humanóides, de 85, e Encrenca na Rua 42, 87, do mesmo diretor, retire ou compre.)
Morella (idem), de Roger Corman. Deste eu esqueci o ano de produção, mas é um Corman legítimo. Vagamente inspirado no conto homônimo de Edgar Allan Poe, tem sua história ambientada no século passado, o que não impede que as calcinhas e camisolas das personagens femininas pareçam artigos comprados em sex shop e que o personagem principal (cego) use óculos ray-ban. Isso e um montão de furos memoráveis. (Agora, se você quiser assistir a um B movie genial de Corman, esqueça O Corvo, A Mansão do Terror, A Máscara da Morte Rubra, A Pequena Loja dos Horrores, e vá direto a O Homem dos Olhos de Raio-X. A história: um cientista bem-intencionado inventa um colírio para melhorar a visão das pessoas e, como ninguém é louco de servir de cobaia para essas coisas, o cientista interpretado por Ray Milland testa a invenção em si mesmo. No começo, as coisas saem bem, mas, à medida em que a sua visão vai se aguçando, uma série de infortúnios começa a acontecer. O sujeito vira vidente de mafuá, depois é caçado pela polícia e por último, ao olhar para o céu, enxerga nele os mais secretos terrores do universo. Em fuga, vai parar numa igrejinha no meio do deserto, bem no momento em que o pastor um fundamentalista cristão está vociferando o texto bíblico: Se teus olhos te envergonham, arranca-os. E não dá outra. Tragédia grega, que nem Ésquilo, que nem Sófocles. Um grande filme, desses que você precisa ser videogarimpeiro para descobrir.)
P.S.: Não espere encontrar todas as minhas sugestões numa única locadora ou revenda. Uma das exigências da videogarimpagem é você ter ficha em várias locadoras e estar sempre em contato com os donos das revendas. A outra eu ia dizer que não sei, mas é não ter preconceitos estéticos e gostar mesmo de cinema. Se você atender a essas exigências, logo vai descobrir que não existe filme ruim que não tenha algumas coisa de bom (ainda que seja uma coleção de erros e demonstrações de inépcia muito divertidas). E por certo filmes assim são bem melhores do que ficar vendo especial do Roberto Carlos, da Angélica, da Xuxa, dos Amigos, anotar receitas da Ana Maria Braga ou repetir o terço bizantino do padre Marcelo. Trash é legal, Trash é legal. Trash é legal. Trash é legal...





