Arquivo FolhaLuiz Gonzaga: baião com drum’n’bass, hardcore e outras fusõesYbrazil?Music
Se o empreendimento sobreviver e não perder de vista as suas características iniciais, talvez num futuro bem próximo o nome acima – de um recém-inaugurado selo nacional independente – sirva para definir um estilo musical que combina eletrônica ‘‘de ponta’’, cosmopolita, com gêneros tradicionais brasileiros. É claro que isso não é exatamente uma novidade, porém o Ybrazil?Music – criado por dois integrantes do grupo Nouvelle Cuisine, Mauricio Tagliari e Luca Raele, e pelo engenheiro de som Cacá Lima – vai além, radicalizando a fusão através de projetos extremamente autorais como ‘‘Sambadelic’’, de Rica Amabis, e ‘‘Prenda na Minha’’, de Shiva Las Vegas.
O primeiro marca a estréia do produtor Amabis como músico/compositor e institui o samba’n’bass, uma ponte entre o samba e o drum’n’bass. E acreditem: se por um lado o drum’n’bass sai enriquecido com essa mistura, o samba nada tem a perder com ela, pois, como toda música viva, evolui e assegura a sua vitalidade ao incorporar novas influências. Xenofobia musical é uma modalidade de burrice, e samba’n’bass, quando menos, é uma alternativa preferível à banalidade do ‘‘sambanejo’’ e do ‘‘pagode mauricinho’’ que infestam a programação das rádios populares e dos programas de auditório da TV.
‘‘Prenda na Minha’’, por sua vez, é um EP em que Alex Antunes, personagem da cena underground paulistana e produtor-executivo da Ybrazil?, desenvolve, sob pseudônimos como Shiva Las Vegas e Lex Lilith, um projeto em que música e poesia brasileiras fazem conexões com ambient, trip hop, funk e soundtracks. Na lista de convidados, o duo eletrônico Tetine, Cláudia Lima (em ‘‘Sadam Dance’’), Marcello Gallo, a atriz Leona Cavalli, e, juntos, Otto e Anvil FX (na faixa ‘‘A.K.A Catimbó’’, que tem letra do poeta pernambucano Ascenso Ferreira).
- - Tributo a Gonzagão
Editado em parceria com o selo Candeeiro, o CD ‘‘Baião de Viramundo’’ é outro lançamento do primeiro pacote da Ybrazil? que merece atenção. Grosso modo, é um tributo a Luiz Gonzaga, mas certamente não o é nos moldes convencionais, pois os artistas que dele participam, ao invés de colocar a herança do ‘‘Rei do Baião’’ num pedestal – o que conduziria a releituras pálidas em confronto com as músicas originais – optaram por ‘‘reinventar’’ o grande ‘‘Lua’’, sem medo de recorrer a gêneros estranhos às suas composições. Assim, DJ Dolores – seguindo um caminho parecido com o de Rica Amabis em relação ao samba – transforma o baião ‘‘A Dança da Moda’’ num forró’n’bass; Black Alien faz ‘‘Vozes da Seca’’ virar um rap nordestino (com direito à participação póstuma do próprio Gonzagão, mediante o uso criativo de uma antiga gravação da música); Fred Zero Quatro põe cavaquinho na deliciosa embolada ‘‘Dezessete e Setecentos’’; a banda SheikTosado converte o lamento de ‘‘Assum Preto’’ em hardcore, entre outras ‘‘esquisitices’’.
Não é um disco irretocável, pois nem todas as ‘‘reinvenções’’ são bem-sucedidas (isto é, convincentes), mas o fato de ser um disco voltado à experimentação é, por si só, um mérito e saudável indício de que o marasmo que domina a MPB pode ser superado. Pequenos selos alternativos, músicos ‘‘visionários’’, muita informação musical (e extramusical) e um NÃO bem grande e redondo a toda música que tem lastro na banalidade serão sempre bons antídotos contra a mediocridade vigente.
- - - Alternet
Até porque não vai ser fácil encontrar nas lojas os discos que mencionei acima, vale esta nota: em breve estará funcionando a Alternet Music (www.alternetmusic.com.br), site (atualmente em construção) destinado à venda de CDs de selos alternativos nacionais. Pertencente ao pessoal da Ybrazil?, venderá, além dos discos deste selo, os da Candeeiro, Motor Music (que possui um pequeno mas excelente catálogo que inclui Superchunk, Man or Astro-man?, entre outras boas bandas independentes), Baratos Afins e Bife com Batatinhas. Aguarde mais uns dias e depois confira.
Hoje excepcionalmente publicamos a coluna de Wilmar Klein nesta página

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