Arquivo FolhaO Bazar do Solda (foto) acontece hoje no Memorial de CuritibaAção entre amigos
Conheci o (Luís Antônio) Solda no final dos anos 70, quando trabalhamos na Grafipar. Então uma das maiores editoras do País, chegando a vender mais de 100 mil exemplares mensais de algumas de suas publicações, nela atuavam jornalistas como Fábio Campana (que dirigia a ‘‘Atenção’’ - sem favor nenhum, uma das melhores revistas que o Paraná já teve), Aramis Millarch (depois que ele se foi, nunca mais apareceu em Curitiba um crítico de música e cinema tão consistente), Wilson Bueno (que, na época, ainda não havia lançado nenhum livro, mas já escrevia ótimos contos), Nelson Faria de Barros, entre outros. Na lista de colaboradores, o Paulo Leminski (escrevendo roteiros de histórias em quadrinhos erótico-humorísticas), a Alice Ruiz, o Luiz Geraldo Mazza. De fora, gente como o João Antônio, o Sílvio de Abreu (antes de virar autor de novelas da Globo), o Moacyr Scliar e outros de quem não vou lembrar agora - todos amigos ou conhecidos do Wilson Bueno, que os convidava para colaborar com contos eróticos. E na relação de artistas contratados pela empresa havia o Cláudio Seto (ou seja, o ‘‘samurai’’ Chuji Seto Takeguma, um dos maiores quadrinhistas do Brasil), o Rogério Dias (que depois tornar-se-ia artista plástico consagrado), o Rettamozzo e, é claro, o Solda, já com um currículo extenso como cartunista de jornais e revistas paranaenses.
Nunca chegamos a ser amigos, mas guardo dele boas lembranças datadas dessa época e certamente sempre respeitei o seu trabalho, cujos méritos foram reconhecidos, nos anos subsequentes, em âmbito nacional e mesmo fora do Brasil. Depois que deixamos a Grafipar (ele antes, pois eu fiquei para ‘‘apagar as luzes’’), às vezes eu o via em algum bar (se não me engano, no antigo Bife Sujo e no antigo Kapelle). Depois perdi completamente o contato, embora, por intermédio de amigos em comum ou pelos jornais, acompanhasse as suas realizações (além de cartuns - sempre excelentes, bem sacados - textos de humor, projetos gráficos e editoriais, campanhas publicitárias, músicas, textos para teatro... não havia como os seus trabalhos passarem despercebidos). Porém, com o homem Luís Antônio Solda alguma coisa não andava bem, e começaram a chegar notícias de que ele estava com problemas de saúde e precisando de um intenso (e caro) tratamento. Por isso mesmo, na esteira da matéria publicada ontem aqui na Folha, vai o repique: nesta quinta-feira, a partir das 19h30 e com ingresso a R$ 5, acontece no Memorial de Curitiba (Largo da Ordem) o Bazar do Solda - Brechó Cultural, uma bela iniciativa dos muitos amigos do cartunista para conseguir recursos para ajudá-lo como ele merece. Entre as atrações do bazar, três shows (com Carlos Careqa, Maxixe Machine e Os Catalépticos), venda de obras de artistas plásticos, livros, CDs, além de reproduções de cartuns do próprio Solda (em camisetas, pôsteres e demais suportes). Não só pelo caráter humanitário do evento, mas também pelos itens que estarão à venda (produzidos, todos eles, por artistas e escritores paranaenses do primeiro time), justifica-se plenamente uma visita.
P.S. - Muito compreensivelmente, alguns leitores devem estar se perguntando: afinal, qual é a doença do Solda? Os amigos dele, organizadores do bazar, não quiseram mencioná-la no material de divulgação que enviaram à imprensa, o que, no caso, também é bastante compreensível. Infelizmente, é compreensível: se fazem uma campanha para ajudar alguém que está - digamos - com câncer ou precisa de um transplante de medula óssea, ninguém vê problema em mencionar a doença, mas experimente dizer que o sujeito é soropositivo, ou tem lepra, ou é alcoólatra, drogadicto, ou doente mental, e logo perceberá que uma boa parte dos que poderiam ajudar não vai nem querer chegar perto.
Ora, não existe solidariedade seletiva: ou somos solidários ou não somos. Assim como quem dele padece não escolhe o seu mal, também a ajuda a ser prestada não pode ser discriminatória. Eu mesmo, quando conto que em outros tempos tive 18 internamentos em hospitais psiquiátricos por conta do meu alcoolismo, estou querendo dizer: isso aí é doença, sim, e das mais sérias (inclusive reconhecida como tal pela Organização Mundial de Saúde); não tem nada a ver com falta de caráter ou falta de força de vontade, porém pode ter muito a ver com falta de compreensão e falta de solidariedade .
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