Por que Curitiba tem tantas bandas de garagem?
Arquivo FolhaOs Catalépticos: uma das bandas que participa do Festival Leite Quente no fim de semanaDe CuritibaDia desses, a editora do Folha2 em Londrina perguntou-me isso, na esperança de que, como frequentemente faço comentários sobre bandas alternativas daqui, eu pudesse ter uma resposta. Não tenho nenhuma, infelizmente, mas, sem dúvida, o fenômeno existe e chama a atenção, sendo responsável, nesta década, pela ampliação do circuito onde essas bandas atuam - constituído, principalmente, por pequenos bares noturnos. Não por acaso, nos cartazes de shows afixados nas paredes desses bares, toda semana encontro duas ou três bandas novas.
Diante de toda essa efervescência, muita gente que frequenta esse meio já se perguntou por que o rock curitibano não acontece nacionalmente. E aí até arrisco alguns palpites: em primeiro lugar, não existe por aqui algo que possa ser chamado de rock (ou pop) curitibano, ou seja, não existe um direcionamento das bandas no sentida de criar uma expressão musical com feições próprias (a exemplo do que acontece, por exemplo, na Bahia ou em Pernambuco). Mas vê se não me entende mal: não estou recomendando para o rock produzido aqui nenhuma opção ‘‘paranista’’, com direito a letras sobre pinhão, barreado e excursões ao pico do Marumbi (se bem que a de rock e fandango até pudesse ser uma mistura interessante).
De qualquer modo, a cena curitibana é dispersiva, dividida entre bandas de hardcore, punk rock, rockabilly, psychobilly, metal (nas várias modalidades do gênero: thrash, death, black, doom metal, entre outras) e umas poucas que incorporam informações do hip hop, do som industrial, do rock progressivo dos anos 70, das bandas inglesas da década de 80 ou mesmo da MPB.
Essa variedade, em geral, não se acompanha nem de originalidade, nem de uma preocupação maior com a qualidade técnica e artística das performances. Ouvir rock tosco, ao vivo (em especial, depois de várias cervejas), até pode ser divertido, mas será um prazer esteticamente perverso, como aquele que o sujeito experimenta ao assistir a um ‘‘B movie’’ de Ed Wood ou ouvir um bolerão cafajeste cantado por Waldick Soriano.
Leite Quente
Mas, é claro, nem por tudo o que disse acima vou deixar de divulgar as bandas locais, mesmo porque acredito que à quantidade se seguirá, com o passar dos anos, uma exigência de qualidade e também porque tenho acompanhado o desenvolvimento de algumas cujos integrantes são, pelo menos, esforçados. Assim, vai aqui o lembrete: nos próximos dias 27 e 28 (sábado e domingo) acontece no câmpus do Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná a terceira edição do Festival Leite Quente, que contará com a participação de 21 bandas da cena alternativa curitibana, São elas (em ordem alfabética) Anti-Kaos, Cartoon. Chateau Lunar, Connes, cores D flores, Estigma, Impfrog, Jack Flash, João - sem - braço, King Kong de Conga br, OAEOZ, Ovos Presley, Plastic Fish, Prozack, Stanley Dix, Striq, Whir, Zigurate e Zirigdum Pfóin, mais as bandas convidadas Los Cuervos e Os Catalépticos. Performance teatral, tatuadores e animação de DJ @menus (nos intervalos dos shows), além da venda de CDs, lanches e muita cerveja são as atrações complementares do evento, que, nos dois dias, terá início às 14 horas (estendendo-se até as 22 horas... ou mais). O ingresso para o Leite Quente, que possui caráter beneficente, será um quilo de alimento não perecível. Os alimentos arrecadados serão doados à ACOA (entidade que presta assistência a crianças carentes portadoras do vírus HIV) e ao Lar dos Meninos do Xaxim.
E-mail: [email protected]

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