Wilmar Klein





Sciascia: literatura X corrupção
Autor de quase 40 livros, Leonardo Sciascia, morto há 10 anos, continua pouco conhecido no Brasil
Certa vez perguntaram-lhe sobre qual seria a diferença entre um escritor e um oficial da PM que redige relatórios. E o escritor italiano Leonardo Sciascia respondeu: ‘‘Ia dizer que nenhuma. Mas, eu gosto de escrever e o oficial da PM, nem tanto. E sei o que é literatura, ele não. Além disso, o oficial da PM não se importa com a justiça. O escritor, sim. Pelo menos, eu me importo.’’
A pergunta – vale observar – não era descabida: Sciascia possuía um estilo seco, realista, quase documental, que por vezes fazia lembrar um relatório e o utilizou em romances policiais cujos temas frequentavam diariamente as páginas dos jornais italianos.
Quanto à resposta, fornece uma pequena amostra do seu ‘‘poder de fogo’’ e, principalmente, das suas intransigentes convicções: porque se importava com a justiça, Sciascia, ao longo de toda a sua obra, combateu ferozmente a corrupção em seu país, onde quer que ela se manifestasse (na política, na Máfia, nos grupos terroristas, na própria Polícia ou no Poder Judiciário); porque sabia o que é literatura, praticou-a com maestria. Seu estilo, embora seco, não era destituído de elegância, e, ainda que adotasse – como se verifica na maior parte da sua produção – um gênero que (ainda hoje, e sem razão) alguns críticos consideram menor – o romance policial – nunca deixou de oferecer, como resultado, excelente literatura. Foi assim desde os seus primeiros escritos, e não deixou de sê-lo quando conheceu o sucesso de público (pelo menos na Itália e boa parte da Europa) através de romances como ‘‘O Dia da Coruja’’ e a implacável reportagem-ensaio ‘‘O Caso Moro’’ (sobre o assassinato de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas).
Nascido na Sicília – o ‘‘berço’’ da Máfia – em 1921, Leonardo Sciascia, antes de iniciar-se na literatura, trabalhou na colheita de trigo, foi professor primário e funcionário do Ministério da Educação. Publicou seus primeiros textos no início dos anos 50 e, além de romances (que dificilmente ultrapassavam 100 páginas), escreveu contos, ensaios literários, peças teatrais e estudos sobre a cultura siciliana, além de atuar como colaborador em importantes publicações como o ‘‘Corriere dela Sera’’ e ‘‘L’Espresso’’.
Em 1979, foi eleito para os parlamentos europeu e italiano, o que em nada arrefeceu a agressividade dos seus escritos e das suas declarações. Seu último livro, ‘‘Portas Abertas’’, foi lançado em 1987.
No Brasil, a obra de Sciascia – que abrange cerca de 40 títulos – continua pouco conhecida, dez anos após a morte do escritor (no dia 25 de novembro). Até onde consegui apurar, foram publicados em nosso país apenas oito de seus livros: ‘‘O Contexto’’, ‘‘A Cada Um, o Seu’’,‘‘1921 + 1’’, ‘‘A Trama’’, ‘‘A Denúncia’’, ‘‘A Bruxa e o Capitão’’, ‘‘Majorana Desapareceu’’ e ‘‘Portas Abertas’’ (o primeiro pela Civilização Brasileira, o segundo pela editora Fontana e os demais pela Rocco). Todos eles fora de catálogo – o que significa que, para ler Sciascia hoje em dia, será preciso ‘‘garimpá-lo’’ nas prateleiras dos sebos. Mas posso assegurar àqueles que nunca o leram: o esforço valerá a pena.
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Uns bichos estranhos (2)
Porque disse na última quinta-feira, logo na abertura do artigo ‘‘Uns bichos Estranhos’’, que uns 99% da literatura produzida em nosso Estado são constituídos por lixo beletrista e que o 1% restante é, no máximo, uma dúzia de gatos-pingados que realmente merecem o título de escritor, não faltou quem se desse ao trabalho de enviar-me, a título de contestação, uma lista com mais de 50 nomes de ‘‘grandes literatos paranaenses’’ – de Emílio de Meneses a Dalton Trevisan, passando por dona Helena Kolody, Paulo Leminski, Domingos Pellegrini Jr., uns dois ou três amigos meus e uns cinco prováveis amigos do ‘‘missivista’’ (já que eu nunca ouvi falar deles). Não vou entrar no mérito da lista, mas gostaria de perguntar ao leitor que a enviou, tornando a pergunta extensiva aos demais leitores: quantos livros de autores paranaense você já leu duas vezes? Pois é ... ‘‘um livro que não merece ser lido duas vezes não é digno de ser lido nem uma vez’’, como afirmou (e eu acho que estava coberto de razão) o escritor (alemão, apesar do pseudônimo francês) Jean Paul.
Ah, sim... também levei um puxão de orelha por ter ‘‘desrespeitado’’ a memória do maestro e compositor Bento Mossorunga. Não vi a citação do nome dele como desrespeitosa, mas até estou disposto a desculpar-me por isso, se acaso não foi ele (como penso que foi) o autor da música do hino do Colégio Estadual do Paraná, que, do ginásio ao científico, tive que cantar, devidamente perfilado à frente do prédio da instituição, todos os sábados, após o término das aulas. Sempre achei aquela música uma das coisas mais chatas do universo. Sem falar daqueles versos (felizmente, já nem me lembro o nome do autor) ‘‘seja o saber o teu fanal, o teu dever, o teu missal’’. Não foi à toa que virei punk depois que deixei o colégio ...
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