Wilmar Klein
Arquivo FolhaWilson Bueno, autor de Jardim ZoológicoUns bichos estranhos
Um pouco por provocação admito mas não sem o que a justifique, continuo mantendo a minha opinião de que uns 99% da literatura produzida no nosso Estado é lixo beletrista (e tanto pior quando preserva aquele ranço paranista meio Rafael Greca do tipo nossa terra, nossa gente, com direito a pinhão, gralha-azul e trilha de Bento Mossorunga). O 1% que resta é meia dúzia, talvez uma dúzia de gatos-pingados que realmente merecem o título de escritor e têm algo relevante a oferecer. Wilson Bueno, com certeza, faz parte dessa dúzia não encontrável em pencas e tal afirmação vai por conta de seu livro mais recente, que acabo de ler, satisfeito em constatar que dos anteriores (Boleros Bar, Manual de Zoofilia, Mar Paraguayo, Cristal, Pequeno Tratado de Brinquedos) confirma qualidades e acresce outras mais.
Chama-se Jardim Zoológico, tem 90 e algumas páginas e saiu pela Iluminuras, de São Paulo, com apresentação de Arnaldo Antunes. Lendo-o, tive a impressão de que baixou no Wilson o espírito de Plínio, o Velho, com a diferença de que o naturalista romano, autor da História Natural (uma bela obra de ficção) acreditava na existência de todos os bichos estranhos que lhe descreviam (assim como Heródoto, o pai da História, botou fé em todos os povos e costumes estranhos de que ouviu falar), enquanto Wilson primeiro cria os seu animais fantásticos para depois acreditar neles. São ivitús, êulikes, nuncas, kwiuvés, nácares, agôalumens, dagdas, phosphoros, zembras, radiuns e outros, que poderiam fazer companhia aos basiliscos, catóblepas, corrotes, leucócrotes, lentofontes e manticores citados por Italo Calvino. (Curioso: Wilson também menciona os catoblepas sem o acento, no caso apresentado, segundo ele, nas Tentações de Santo Antão, de Flaubert, e lembrado por Borges.) E, pode crer, esses bichos todos existem, por estranhos que possam parecer (assim como existem por raro que isso seja excelentes escritores paranaenses). Seu domínio é o do realismo mágico, instância elevada da poesia pouco importa se em prosa, em verso que costuma render maravilhosos bestiários. Pelo sim, pelo não, sorte do Wilson Bueno não viver nos tempos da Inquisição, pois correria o risco de ser condenado à fogueira sob a acusação de estar possuído por Xerbeth, demônio instigador dos prodígios imaginários e dos contos maravilhosos.
Monterroso
Gostei de ver citado, na abertura do Jardim Zoológico, o Augusto Monterroso: As novas gerações de escritores, afirmou, deverão retomar, cada qual na medida de seu talento, a inventiva tarefa que começou com Esopo, ou mesmo antes dele, de reunir os animais que pela Terra andam e hão de andar perenemente. Há um ano, um ano e pouco, falei dele aqui na Folha, mas vale o repique: Monterroso é guatemalteco, autor de Viaje al centro de la fábula e provavelmente um dos maiores escritores da América Latina inéditos no Brasil. Nos anos 50, tornou-se conhecido fora das fronteiras do seu país ao vencer um concurso da revista Life destinado a premiar o menor conto do mundo. Abiscoitou, com o texto O Dinossauro, o prêmio de mil dólares, tornando-se assim o autor das sete palavras (incluindo o título) mais bem pagas do mundo. O minúsculo conto é este: Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá. Só isso. Mas (ninguém precisa concordar comigo) é uma obra-prima. E-mail: [email protected]





