Wilmar Klein





Mary, a encrenqueira
Há 10 anos, no dia 26 de outubro, morria Mary McCarthy, a autora de ‘‘O Grupo’’
Uma das mais importantes escritoras norte-americanas deste século, Mary McCarthy, autora de ‘‘O Grupo’’, ‘‘Pássaros da América’’ e ‘‘Memórias de uma Menina Católica’’, entre outras obras que atestam o seu talento e vigor intelectual, nasceu em Seattle, no Estado de Washington, em 21 de junho de 1912, numa família formada por judeus, católicos e protestantes. Tendo ficado órfã muito cedo, Mary, antes de ingressar na carreira literária, trabalhou como professora de inglês e como funcionária de uma editora. Casou-se quatro vezes (a primeira no final da década de 20) e foi trotskista na juventude.
Dotada de uma inteligência exuberante, utilizou-a de forma contundente tanto em seus romances e livros de memórias quanto em suas atividades como jornalista e crítica. As alusões sexuais e a irreverência contidas em suas primeiras obras – entre elas, ‘‘The Man in the Brooks Brother Shirts’’, de 1941, e ‘‘The Oasis’’, de 1949 – causaram, na época de seu lançamento, um certo escândalo, porém o sucesso popular só aconteceria em 1963, com a publicação de seu sexto livro, ‘‘The Group’’, sátira sobre a vida de oito jovens mulheres americanas levada à tela alguns anos depois. Nesse meio tempo, casou-se pela segunda vez, com o crítico literário Edmund Wilson, autor de ‘‘O Castelo de Axel’’, ‘‘Rumo à Estação Finlândia’’ e ‘‘Memórias do Condado de Hécate’’ (recentemente editado no Brasil). Com ele viveu durante oito anos e teve um filho. A acreditar em Mary, Wilson era um tirano, porém essa ‘‘tirania’’ responde, em grande parte, por dois dos melhores livros da escritora. Percebendo que ela passava por um longo período de desinteresse pela atividade literária (salvo como leitora), Wilson trancou-a num quarto junto com um máquina de escrever e só a deixou sair quando ela concluiu ‘‘The Company She Keeps’’, um romance (como todos os outros que produziu) de fundo autobiográfico, no qual conta uma aventura sexual com um político burguês (Mary nunca desmentiu a hipótese de que tal personagem foi inspirado em Wendel Wilkie, candidato à presidência dos EUA pelo Partido Republicano, em 1940). Depois que separou-se de Wilson, Mary vingou-se retratando-o com as piores qualidades do mundo no livro ‘‘A Charmed Life’’.
Encrenqueira ‘‘de carteirinha’’, Mary McCarthy possuía uma língua ferina que lhe valeu uma legião de inimigos. Briga célebre foi com a escritora Lilian Hellman, stalinista, a quem, por anos a fio, Mary hostilizou sistemática e veementemente. Num programa de TV comandado por Dick Cavett, afirmou que tudo o que Lilian escrevia era mentira, inclusive as vírgulas e as preposições. A coisa foi tão longe que acabou no tribunal, com Hellman pedindo US$ 2,25 milhões por conta das ofensas acumuladas. (Para a sorte da autora de ‘‘O Grupo’’, Lilian morreu em 1984 e a questão foi encerrada, não sem antes Mary declarar que estava ‘‘decepcionada’’ porque a inimiga havia ‘‘fugido da raia’’ antes do julgamento.)
Já no plano da militância política, Mary McCarthy foi uma das mais ferrenhas críticas da Guerra do Vietnã. Quando os EUA invadiram aquele país, embarcou para Saigon e começou a escrever um livro cuja primeira frase é : ‘‘Vim aqui para falar mal dos EUA’’. Algum tempo depois, ameaçou ir a Hanói (Vietnã do Norte), na companhia dos principais intelectuais nova-iorquinos (na ‘‘comitiva’’ estariam, entre outros, os escritores Norman Mailer e William Styron), para que fossem bombardeados pelos americanos. Os vietcongues lhes negaram o visto. Tinham já muita confusão por lá sem a presença de Mary McCarthy.
Tendo vivido os últimos anos em Castine, nas proximidades de Paris, e enfrentando várias operações na tentativa de diminuir a sua hidrocefalia, a escritora morreu no dia 26 de outubro de 1989, uma quinta-feira, tendo deixado uma obra consistente (e não raro polêmica) que inclui, além dos títulos já mencionados, ‘‘Canibais e Missionários’’ e os ainda inéditos no Brasil ‘‘Veneza Observed’’, ‘‘The Stones of Veneza’’, ‘‘Watergate Portraits’’, ‘‘The Croves of Academe’’, e o livro de memórias ‘‘How I Grew’’, entre outros.

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