Wilmar Klein






Pelé tocando post-rock e
Schumacher fazendo ambient
E mais: uma banda chamada Tristeza e álbuns com títulos em português ‘‘macarrônico’’
ReproduçãoO grupo alemão Faust lembra uma garage Band no CD ‘‘Ravvivando’’Desde o mês passado, podem ser encontrados nas lojas norte-americanas especializadas em discos alternativos os CDs ‘‘People Living With Animals. Animals Kill People’’, de Pelé, e ‘‘Fidicin Drones’’, de Michael Schumacher. Mas, calma... não se trata nem do ex-maior jogador de futebol do mundo (que, na área musical, fez, há muitos anos, somente umas poucas e pouco memoráveis incursões), nem do piloto da Ferrari. Vale, portanto, apresentar os homônimos.
Pelé é uma banda de Milwaukee (Wisconsin, EUA) formada por Scott Schoenbeck (baixo), Chris Rosenau (guitarra), Jon Mueller (bateria) e Scott Beschta (eletrônica). O que o quarteto faz tem sido rotulado pela crítica americana como post-rock (um rótulo cômodo, já que ele serve para quase tudo que é difícil de classificar). Não obstante, ‘‘People Living ... Animals Kill ...’’ (um título antiecológico?), que saiu pela pequena gravadora Star Star Stereo (lá do porto de Milwaukee, mesmo), está mais para uma combinação de música progressiva, jazz-fusion e improvisação (no sentido jazzístico do termo). Tudo muito competente. O destaque do CD - todo ele instrumental - fica por conta da lânguida ‘‘Apiary’’, faixa de 23 minutos, cheia de climas e efeitos, na qual eletrônica e instrumentos convencionais compõem uma paisagem sonora relaxante e criativa.
Já Michael J. Schumacher (é, tem um ‘‘J’’ no meio) é um guitarrista especializado em ambient music, o que hoje em dia tanto pode ser algo entre easy listening banal e new age soporífera quanto um vasto campo de experimentação sonora (coabitado por músicos inventivos como o alemão Thomas Köner, o americano Bill Laswell, o japonês Tetsu Inoue e o australiano Paul Schutze - isso para ficar nuns poucos exemplos). Schumacher pertence a essa segunda turma e produz um som ‘‘flutuante’’ e ‘‘profundo’’ (na descrição de música ambient, é quase inevitável recorrer a adjetivos ‘‘impressionistas’’), permeado por notas breves e uma saudável propensão ao experimentalismo. Nem por isso ‘‘Fidicin Drones’’ (lançado pelo selo Colorful Clouds For Acoustics, de Clifton Heights, Pensilvânia) é inacessível: embora a faixa-título exija um pouco mais do ouvinte, composições como ‘‘The Resolution Chord From ‘Frances’’’ e ‘‘E Flat Drone’’, suaves e ‘‘atmosféricas’’, agradam logo na primeira audição. Um grande disco.
‘‘Esquisitices’’
E de uma banda chamada Tristeza, você já ouviu falar? Ela vem de San Diego, Califórnia, e só é citada aqui por causa do nome curioso. Na prática, é uma banda pseudo-progressiva, tentando soar como algo entre Tortoise e o lendário grupo de kraut rock Can ... mas nem chega perto. Seu álbum mais recente, ‘‘Spine And Sensory’’ (que saiu pelo selo Makoto), é só monotonia. Uma tristeza.
Para finalizar, dois magníficos CDs com títulos em português (estropiado): ‘‘E Luxo So’’ (sem os acentos), o quinto do Labradford, e ‘‘Ravvivando’’ (que em inglês soa mais ou menos como ‘‘Revivendo’’), do Faust. O primeiro destes dois discos eu já mencionei em meu espaço das quintas-feiras, mas, de tão especial que é, merece mais algumas linhas. Labradford, além de ser a melhor coisa da gravadora Kranky, de Chicago, é, provavelmente, a melhor banda de post-rock dos EUA. ‘‘E Luxo So’’ (fico imaginando como é que um americano pronuncia isso) segue a linha dos discos anteriores do grupo e é ainda mais ‘‘zen’’ e ‘‘cinematográfico’’ do que o quarto álbum, ‘‘Mi Media Naranja’’. Fred Cisterna, crítico da revista americana ‘‘Magnet’’, comparou a faixa ‘‘And Jonathan Morken Photograph Provided By’’ a uma composição de John Barry feita de encomenda para o Portishead e ‘‘With John Morand And Assisted By Brian Hoffa’’ à música de um spaghetti-western (imagino que tinha em mente as soundtracks de Ennio Morricone). São boas comparações, mas seria preciso acrescentar que o som do Labradford é de uma introspecção, uma suavidade, atemporalidade e beleza quase oníricas. Difícil não gostar, e o mesmo vale para a sua mãe, o seu pai, os seus avós e o seu cachorro.
Quanto a ‘‘Ravvivando’’, traz o Faust (uma das bandas alemãs mais inovadoras dos anos 70) num momento eufórico, fazendo lembrar às vezes uma garage band dos dias atuais. A diferença é que nenhuma garage band possui a inteligência e a ‘‘cancha’’ do Faust. Um álbum recheado de distorções - nos teclados, nas cordas e nos (poucos) vocais - e de uma vitalidade capaz de surpreender quem só conhece o som ‘‘viajandão’’, contemplativo, dos discos antigos do grupo. ‘‘Revivendo’’, neste caso, significa menos uma revisita aos primórdios do kraut rock do que uma ‘‘ressurreição’’ afinada como o que ‘‘rola’’ na cena alternativa deste final de século.
E, de resto, será preciso dizer que nem o Labradford e nem o Faust (apesar dos nomes dos discos), nem o Tristeza e muito menos Pelé e Schumacher, têm a ver com a MPB e que, levando em conta o que hoje se abriga sob esta sigla, é até preferível?

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