Brasileiro radicado nos EUA há mais de 20 anos, o saxofonista Ivo Perelman declarou no ano passado, em entrevista à revista britânica ‘‘The Wire’’ (nº 173, julho), que nunca esteve interessado em free jazz e nem sequer imaginava que poderia vir a tocar como atualmente toca. A biografia do músico reforça tais declarações: estudou violão clássico quando criança, depois violoncelo, clarineta, piano – mas nenhum desses instrumentos o satisfez e nem o tipo de música que lhe ensinavam. Passou, então, a interessar-se por hard rock (Deep Purple e Uriah Heep eram, no gênero, os seus grupos favoritos). Mas logo descobriu que também não era por aí. Matriculou-se no curso de arquitetura e, nesse meio tempo, experimentou o sax-alto e depois o sax-tenor – havia encontrado o seu instrumento. Abandonou a faculdade e foi estudar em Berklee, a famosa escola de música de Boston (EUA), onde permaneceu apenas por um ano (Perelman diz que era mau aluno). De lá, seguiu para o Canadá, dando sequência aos seus estudos musicais, porém só os concluiu em 86, na Califórnia. O primeiro disco, ‘‘Ivo’’, lançado por uma gravadora independente de Los Angeles, apareceu três anos depois e contava com as participações do percussionista Airto Moreira e sua mulher, a cantora Flora Purim – há muito radicados nos ‘‘States’’ –, mais John Patittuci e Peter Erskine. No repertório, cantigas de roda brasileiras com tratamento jazzístico. Seguiram-se outros dois discos, explorando as influências da música africana e européia sobre a música popular brasileira. E Perelman não parou mais: de 89 para cá, já gravou 20 CDs, que mostram a sua evolução rumo ao free jazz. Todos eles bastante elogiados pela crítica especializada, que hoje coloca Perelman entre os melhores saxofonistas em atividade nos EUA, chegando mesmo a compará-lo a John Coltrane (o que não é pouco!).
O ano de 1996 foi particularmente produtivo para o músico, que lançou três CDs no período: dois com a pianista Marilyn Crispell – ‘‘Sad Life’’, dedicado à releitura de canções judaicas tradicionais, e ‘‘Live’’, de pura improvisação, com as participações de Rashied Ali e William Parker – e ‘‘Aquarela Brasileira’’, recém-lançado em nosso país pelo pequeno selo Atração. Acompanhado pelo pianista Matthew Ship, pelos percussionistas Cyro Baptista e Guilherme Franco, e, novamente, por Rashied Ali (que foi baterista de John Coltrane), Perelman funde em ‘‘Aquarela’’ a tradição rítmico-percussiva brasileira e os ‘‘vôos’’ do free jazz. O disco tem 12 faixas, entre composições do próprio saxofonista e alguns ‘‘standards’’ da MPB. Mesmo não figurando entre os trabalhos – digamos – mais ‘‘radicais’’ de Perelman, fornece excelentes amostras de seu talento: primeiro, porque não é fácil injetar novidade (coisa que ele conseguiu fazer) em composições desgastadas por incontáveis leituras, como ‘‘Desafinado’’ e ‘‘Aquarela do Brasil’’; segundo, porque todas as faixas foram gravadas ‘‘de primeira’’, sem qualquer ensaio, o que, convenhamos, é um procedimento de alto risco no qual somente músicos muito habilidosos e inventivos conseguem ter êxito. De resto, vou ficar torcendo para que a Atração se anime a lançar por aqui outros discos importantes de Perelman, como ‘‘Geometry’’ (com Borah Bergman), ‘‘Seeds, Vision and Counterpoint’’ (com Cecil Taylor, Dominic Duval e Jay Rosen), o já mencionado ‘‘Live’’, ‘‘Strings’’ (com o guitarrista Joe Morris) e – lançado nos EUA e na Europa no ano passado – ‘‘The Alexander Suite’’ (com o CT String Quartet de Dominic Duval).
Clássicos restaurados
Agendada para o período de 15 a 28 de outubro, em seis salas de exibição, e contando com a participação de mais de 100 filmes, entre longas e curtas-metragens, a 23ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo terá sua abertura oficial realizada na Sala São Paulo (antiga Estação Júlio Prestes), no dia 13 daquele mês, quando será exibida uma cópia recentemente restaurada (pela Cinemateca de Madrid) do clássico ‘‘Fausto’’ (1926), de Friedrich Wilhelm Murnau (o diretor de ‘‘Nosferatu’’). O filme – que traz memorável (e engraçadíssima) atuação do grande Emil Jannings no papel de Mefistófeles – ganhou uma nova trilha, composta pelo maestro alemão Bernd Schulcheis e que terá no evento a sua estréia mundial, interpretada pela Sinfonia Cultural, orquestra da Rádio e TV Cultura, sob a regência de Osvaldo Colarusso. Schulcheis virá ao Brasil para conferir a estréia.
Outro clássico do cinema expressionista alemão, ‘‘O Gabinete do Dr. Caligari’’ (1919), de Robert Wiene, com Werner Krauss, Conrad Veidt e Lil Dagover nos principais papéis, acaba de ser lançado em DVD pela distribuidora Continental. A copiagem foi feita a partir de uma matriz restaurada nos EUA, que recuperou as viragens de cor originais (sépia, verde e azul) e preservou os letreiros de estilo expressionista. O filme também ganhou uma trilha nova, assinada pelo compositor Paulo Beto, que, embora bem-intencionado, não logrou compor uma trilha à altura da força dramática das imagens – ou seja, uma trilha que, fosse, também ela, expressionista. Nada contra os efeitos eletrônicos utilizados por Beto, mas, na verdade, são raros os filmes antigos que se beneficiaram desse recurso quando ganharam novas trilhas. (A do clássico de Benjamin Christensen ‘‘Haxan – A Feitiçaria Através dos Tempos’’, na releitura do grupo dinamarquês Art Zoyd – o disco, importado, ainda pode ser encontrado em catálogo – é uma das poucas e honrosas exceções. A de Paulo Beto é apenas equivocada.)
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