O fenômeno ‘‘Blair Witch’’
Após estréia modesta, em meados de julho, em apenas 27 cinemas dos EUA, o primeiro longa dos jovens diretores Eduardo Sanchez e Daniel Myrick, ‘‘The Blair Witch Project’’, passou, na última sexta-feira, a ser exibido em 800 salas norte-americanas e ganhou intensa campanha de TV e rádio. Ainda mais modesta que a distribuição inicial do filme foi a quantia incrivelmente irrisória gasta para realizá-lo: US$ 20 mil (uma insignificância mesmo para os parâmetros orçamentários da produção cinematográfica brasileira, onde a maioria dos filmes atualmente exibidos em circuito comercial custou mais de R$ 1 milhão).
Na terra de Steven Spielberg, George Lucas e James Cameron (acostumados a trabalhar com orçamentos superiores a US$ 100 milhões), não há como não chamar ‘‘The Blair Witch’’ de ‘‘fenômeno’’. Porém, talvez não seja um ‘‘fenômeno’’ tão inexplicável quanto, a princípio, pode parecer...
Mostrado ao público pela primeira vez em janeiro deste ano, durante o Sundance Festival - que funciona (embora cada vez menos) como uma espécie de vitrina para cineastas novatos e promissores -, o filme chamou a atenção da distribuidora Artisan Entertainment, que o adquiriu por US$ 1 milhão (nada mal para uma produção de orçamento ‘‘Z’’ !).
Lançado no dia 16 de julho - uma sexta-feira -, arrecadou no primeiro final de semana US$ 1,5 milhão em ingressos comprados por espectadores curiosos em saber se o filme merecia os rasgados elogios que lhe foram feitos pelo jornal ‘‘The New York Times’’ e pela revista ‘‘Entertainment Weekly’’. Quem foi conferir confirmou tais elogios, contemplando ‘‘The Blair Witch’’ com a mais antiga e eficiente forma de publicidade: a publicidade boca a boca.
Daí por diante, com o aumento da demanda e, por consequência, dos lucros, as coisas ficaram mais fáceis para o longa de Sanchez e Myrick, estrelado por atores também desconhecidos até então - Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael Williams. Mas, afinal, que filme é esse? O que ele tem de tão especial?
‘‘The Blair Witch Project’’ é um filme de terror. Conta a história de três estudantes de cinema - Heather, Josh e Mike (os mesmos nomes dos atores principais) - que internam-se numa floresta do Estado de Maryland para rodar um documentário sobre uma lenda local, a da ‘‘Bruxa de Blair’’, que há 200 anos utilizava o sangue das crianças da região em seus rituais diabólicos.
Os jovens cineastas desaparecem misteriosamente e, um ano depois, é encontrada uma sacola com duas câmeras e um gravador, nos quais está registrado o que aconteceu. Um ponto de partida ao mesmo tempo simples e engenhoso, ao qual se segue uma história (escrita pelos próprios Sanchez e Myrick) igualmente simples e bem contada.
E é justamente o que falta à maioria das grandes produções hollywoodianas de hoje em dia: histórias simples e bem contadas. Uma ausência que o cinema mainstream procura compensar com um arsenal de efeitos especiais cada vez mais exuberante. Efeitos que enchem os olhos do espectador, que o extasiam pela grandiloquência, mas, tão longo as luzes da sala de exibição são novamente acesas, se dissipam sem deixar rastros na memória e - o que é mais grave - sem conseguir disfarçar (mesmo durante a projeção) a debilidade do roteiro e a frieza da direção.
O resultado, no mais das vezes, são vistosas e milionárias mercadorias sem alma. Em algum momento, o espectador sentirá falta de uma boa e simples história, contada sem o auxílio de ‘‘pirotecnias’’ fantásticas. Uma história que envolva, que crie uma expectativa (o que vai acontecer em seguida ?), sua própria atmosfera. Em momentos assim, surgem e acontecem filmes como ‘‘The Blair Witch Project’’, que explora medos atávicos como o medo do escuro (e do que ele pode ocultar), o medo de uma floresta desconhecida, de um ruído de origem não identificada.
E, principalmente, explora algo que o cinema de terror das últimas décadas (que preferiu investir na profusão de efeitos especiais e sangue & tripas) praticamente esqueceu: que aquilo que é apenas sugerido é, não raro, bem mais apavorante do que aquilo que é mostrado explicitamente.
De resto, filmes de orçamentos irrisórios que dão lucros fantásticos, assim como filmes de orçamentos estratosféricos que fracassam, não são tão incomuns quanto costumamos imaginar. Em 1992, o então estreante Robert Rodriguez lançou o seu longa ‘‘El Mariachi’’, realizado com uma quantia inacreditavelmente minguada: US$ 7 mil!
O filme - em cujos créditos Rodriguez também comparece como co-produtor, roteirista, fotógrafo e montador - caiu no gosto do público e o cineasta, daí por diante, passou a receber excelentes propostas de trabalho, a integrar o círculo de ‘‘protegidos’’ de Quentin Tarantino e a contar com verbas com as quais nunca sonhara (‘‘A Balada do Pistoleiro’’, de 95, continuação de ‘‘El Mariachi’’ estrelada por Antonio Banderas, teve um orçamento mil vezes maior). Porém, Rodriguez nunca mais foi um cineasta tão vigoroso quanto em seu filme de estréia. Tomara que o mesmo não aconteça com os novatos Sanchez e Myrick...
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