Wilmar Klein
O círculo vicioso da mediocridade
Quando a conheci, há três ou quatro anos, ouvia heavy metal em tempo integral - ou seja, um derivado do rock cheio de subdivisões mais ou menos xiitas, todas elas assinaladas pela burrice musical e por uma incurável tendência à estagnação (1). Pareceu-me então mais fácil diminuir o abismo pela via do imaginário associado ao gênero (em geral, bem mais interessante do que ele próprio), o que deu-me ensejo de recomendar-lhe alguns livros e filmes clássicos de terror e falar-lhe de pintores visionários.
Porém, ao tornarem-se mais frequentes os nossos encontros, atrevi-me a tentar mudar o seu gosto musical, ou, pelo menos, torná-lo mais amplo e maleável. Lembro-me de ter gravado algumas faixas mais pesadas de um grupo industrial alemão, o Einsturzende Neubauten (2), e de que ela odiou a fita. Ainda assim, teve a boa vontade de ouvir a compilação uma segunda vez, e já o som não lhe pareceu tão detestável: aquilo certamente não era heavy metal, mas algo bem mais complexo, criativo e, por consequência, mais difícil de assimilar.
Então ouviu a fita uma vez e começou a gostar dela. Quis saber mais sobre aquela banda e conhecer outras que igualmente fizessem música esquisita, instigante, bem elaborada. Tal curiosidade levou-a a incorporar ao seu cardápio musical grupos e artistas que, não obstante os muitos anos de estrada, continuam praticamente desconhecidos no Brasil (onde seus discos nunca são lançados ou divulgados), como, por exemplo, Test Deparment, Laibach (a banda eslovena mais polêmica da Eslovênia), SPK, Nurse With Wound, Bill Laswell, Bruce Gilbert e, entre as bandas já extintas (cujas ex-integrantes continuam, felizmente, a desenvolver inventivos trabalhos solo) Cabaret Voltaire e Tuxedomoon.
Esse aprendizado sonoro deu-lhe condições de distinguir entre o que realmente é criativo, consistente e, em vários casos, atemporal na música feita por artistas surgidos nestes anos 90 e nas décadas anteriores (reconhecendo-lhes as qualidades, ainda quando não goste do estilo de um ou outro desses artistas) e o que é simplesmente convencional (mesmo quando pespegam-lhe o rótulo de moderno), efêmero, descartável.
E nem seria preciso acrescentar que Lizandra, a minha mulher e mãe da Hadra, hoje odeia heavy metal. Por que motivo contei acima uma história de cunho - digamos - doméstico e pessoal? A razão é que ela ilustra e remete a questões mais gerais, podendo o leitor substituir heavy metal por pagode, sambanejo, música de corno rurbana (termo empregado pelo saudoso crítico Aramis Millarch para designar os pseudo-sertanejos - os Chitõeszinhos, os Xororós, os Leonardos), bem como pelas modalidades nacionais e internacionais do que é aglutinado sob o rótulo música pop, sem precisar modificar os comentários que dispensei àquele gênero.
O que ocorre é que, para a formação de uma cultura musical digna deste nome, são necessários, antes de tudo, informação e acesso a essa cultura - justamente o que a imprensa e outros meios de comunicação deste país (atrelados aos interesses comerciais da indústria fonográfica e da indústria do espetáculo) continuam a sonegar aos brasileiros. O resultado desse estado de coisas é um processo de crescente homogeneização do gosto (nivelado por baixo) e mediocrização da cultura que parecem contaminar até os altos escalões do poder.
Vide, por exemplo, o nosso Rafael Greca, que encomendou à dupla Chitãozinho e Xororó (de novo, eles !) o hino dos 500 anos do Descobrimento. O título da música, diga-se de passagem, não poderia ser mais apropriado: O Meu País é uma Arena Gigantesca. Uma arena na qual Greca faria o papel de imperador de ópera-bufa e os leões são os grandes interesses empresariais (e acaso a indústria fonográfica - de ramificações planetárias - , as redes de televisão e rádio estão interessadas no aperfeiçoamento da cultura e da capacidade crítica dos consumidores ?). Por sua vez, a imprensa, a qual caberia um fundamental papel (inclusive didático) como divulgador de uma cultura mais elevada (tornando-a mais acessível), contenta-se, porque lhe convém, com a mediania revestida com aparência de modernidade e alto valor artístico. Isso, no campo da música, tanto se aplica a modernidades corriqueiras como a eletrônica de arena do Prodigy e dos Chemical Brothers quanto à última banda do britpop na qual a indústria decidiu investir maciçamente; e, mais frequentemente, vale em relação aos artistas de prestígio nacionais (Marisa Monte, Caetano, Gil, Milton Nascimento, Djavan, Zélia Duncan - para ficar em uns poucos nomes), de um bom gosto fácil, digerível, pasteurizado.
E o resto É o Tchan, Só Pra Contrariar, Katinguelê, Skank (e ítens assemelhados do cardápio fast-food oferecido pela Emetevê) e os inevitáveis Amigos(com amigos assim, quem precisa de inimigos para ser induzido ao consumo de cerveja e à mediocridade?). Não admira, portanto, que 99% das pessoas bem informadas deste país nunca tenha lido os nomes dos grupos e artistas que mencionei no primeiro parágrafo deste texto. A culpa, certamente, não é dos leitores, telespectadores e rádio-ouvintes.
(1) Por isso mesmo é que não existe isso que a mídia vem chamado de new metal: o que se ouve com este título ou não é realmente novo, ou não é metal.
(2) Referi esta banda em duas ocasiões, aqui na Folha, e novamente informo que em outubro ela apresenta-se em São Paulo - sem que, até agora, a imprensa paulista tenha dado uma única nota sobre o show. Menos industrial e mais diversificada do que no começo da carreira, o Neubauten, além de álbuns notáveis (valendo o mesmo adjetivo em relação aos discos solo de três de seus integrantes: o líder Blixa Bargeld, F.M. Einheit e Alex Hacke), tem feito, desde o início da década de 80, música para peças teatrais (de Heiner Muller, inclusive), balés e filmes de vanguarda.





