Wilmar Klein
Cummings ampliado
Agência Estadoe.e.cummings: suas extravagâncias tornaram a poesia mais livre e expressivaNo ensaio e.e. cummings: recordação, enfeixado em seu livro Signos em Rotação, Octavio Paz escreveu, a propósito de um dos maiores renovadores da poesia de língua inglesa neste século: Nenhuma das chamadas extravagâncias de cummings - tipografia, pontuação, jogos de palavras, sintaxe em que os substantivos, os adjetivos e mesmo os pronomes tendem a converter-se em verbos - é arbitrária. É um jogo que, como todos os jogos, obedece a uma lógica estrita. O maravilhoso do jogo é que, como a poesia, coloca em movimento a necessidade para produzir o acaso ou algo que se lhe assemelha: o inesperado. Nada mais gratuito do que uma composição de cummings - por exemplo
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- nada mais gratuito (...); nada mais surpreendente. (...) Desde seu primeiro livro até o último, a sua é uma poesia jovem, que muito poucas vezes os jovens escrevem. Dizem que se repetiu. Talvez seja certo. Seria preciso acrescentar que, se não há evolução em sua obra, tampouco há decadência. Desde os seus primeiros poemas alcançou uma perfeição que não haveria outro remédio senão chamar de incandescente, se não fosse ao mesmo tempo a personificação do viço e do frescor. Primavera de chamas.
Há quase 30 anos, o poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos vem colhendo as florações dessa primavera, oferecendo-as, transcriadas, ao leitor brasileiro - em traduções esparsas e no bojo de ensaios, publicados na imprensa paulistana e em revistas literárias, ou em livros. É bem verdade que o primeiro conjunto de suas traduções de cummings - 10 Poemas - nunca viu a luz: foi editado em 1960 pela Ministério da Educação, porém o magro volume nunca foi colocado à venda.
E não teve sorte muito melhor uma versão ampliada - 20 Poemas -, datada de 1979: publicada pela editora Noa Noa, de Florianópolis, teve uma modesta tiragem de 600 exemplares. Somente em 1986 a poesia de cummings, transcriada por Campos, chega a um público maior: a editora Brasiliense lança 40 Poem(a)s, que teve duas tiragens esgotadas naquele ano. Agora é a vez de Poem(a)s, que acaba de sair pela Francisco Alves.
Edição bilíngue, caprichada, que acrescenta 22 poemas aos 40 anteriormente publicados e inclui uma introdução assinada pelo próprio Augusto. Um trabalho de paciência, amor e inventividade: verter cummings para outra língua e ser bem-sucedido é uma empreitada da qual poucos podem vangloriar-se. (Mesmo o mexicano Paz, poeta exímio e tradutor em geral competente, admitiu que as suas tentativas foram insatisfatórias: traduziu seis poemas de cummings e o resultado - depois incluído no livro Portas al Campo, México 1966 - levou-o a desistir de outras tentativas.)
Campos - discípulo aplicado de Pound - busca a congenialidade, a empatia criativa com o autor que recria, e, no mais das vezes, têm êxito na abordagem das extravagâncias de cummings - extravagâncias que tornaram a poesia (não apenas a poesia norte-americana, mas a poesia do nosso tempo) mais livre e mais expressiva, ao descortinar-lhe novos rumos.
Quem foi cummings
e.e. (de Edward Estlin) cummings - nome que o poeta fazia questão de grafar com minúsculas - nasceu em Cambridge, Massachussetts (EUA), e estudou em Harvard antes de embarcar para a França para lutar na Primeira Guerra Mundial. A exemplo de seu compatriota Hemingway, foi motorista de ambulância durante a guerra. Nas décadas seguintes - anos 20 e 30 -, morou em Paris (onde estudou arte) e Nova York, que eram os grandes centros da vanguarda da época.
Pintor (sofrível), dramaturgo (idem) e poeta (brilhante e inovador), nunca conseguiu manter-se com o minguado rendimento de suas atividades artísticas. Bolsas de estudo concedidas por fundações, bem como o auxílio financeiro dos pais e, depois, de sua terceira mulher, a modelo e fotógrafa Marion Morehouse (com quem viveu a partir de 1932), garantiram o seu sustento até 1962, quando um ataque cardíaco o matou.
Por suas ousadias formais, cummings pagou o preço da incompreensão por parte da crítica e foi ignorado pelo grande público. Mesmo hoje, sua poesia - não obstante o reconhecimento de seus méritos - não é o que podemos chamar de popular, e menos ainda o é em nosso país. Por isso mesmo, a quarta (e a mais ampla) edição brasileira de seus poemas - traduzidos pelo seu maior divulgador por aqui, Augusto de Campos - é algo para ser saudado com o foguetório que ao discreto, quase ascético cummings (refiro-me ao seu temperamento, não à sua obra) a posteridade ficou devendo, e vale como um passaporte à aventura da linguagem inventiva. (W.K.)





