Wilmar Klein
Tremor de tempo
ReproduçãoDavid Cronemberg é o diretor de Videodrome, um cult movie que anda meio sumido da TVReproduçãoCapa de Selenography, disco da banda RachelsEm 2001, um abalo no movimento contínuo de expansão do universo faz com que a humanidade recue dez anos no tempo, voltando a cometer as mesmas coisas estúpidas que tem cometido em nossa década até poder recuperar o seu livre-arbítrio. Este ponto de partida fornece ao escritor norte-americano Kurt Vonnegut, em seu livro mais recente, Timequake (agora lançado no Brasil pela editora Rocco), o pretexto para mais uma vez praticar a sua especialidade: criticar o presente - mais especificamente o seu país (sua sociedade, sua política, a utilização de seu desenvolvimento tecnológico) - sob o disfarce da ficção científica.
Ficção recheada de um humor cínico e, à medida em que o escritor envelhece, mais melancólico. Autor de Matadouro 5 (levado à tela por George Roy Hill em 1972), O Almoço dos Campeões, Pássaro na Gaiola, Hocus Pocus, Pastelão ou Solitário Nunca Mais, entre outros romances, Vonnegut retoma em Timequake o seu personagem Kilgore Trout, um escritor de histórias de sci-fi malucas que seu criador utiliza para rir de si mesmo (um riso não destituído de nostalgia e autocomiseração) e para emitir opiniões sobre os mais variados assuntos.
Atualmente com 76 anos, o autor declarou que Timequake é o seu livro de despedida. É uma pena: sentiremos falta de Kilgore Trout e do que Vonnegut tem a nos dizer - ainda que o humor com que o diz traduza o desencanto em relação aos seus alvos.
Uma banda para ouvidos bem-educados
Após três anos de silêncio fonográfico, uma das bandas mais interessantes surgidas nestes anos 90 nos EUA, Rachels, lançou no mês passado, pela pequena gravadora Quarterstick, o seu quarto álbum, Selenography. Liderada pela pianista Rachel Grimes, faz um som muito diferente daquele que seria de se esperar de um grupo formado em Louisville, Kentucky. Nada a ver, portanto, com country, folk ou rock com sotaque caipira. Rachels é quase um grupo de câmara e dá para perceber, em menos de um minuto de audição de qualquer de seus trabalhos, que os seus integrantes têm uma formação clássica consistente. Porém, o que a banda faz não é exatamente música clássica. Não obstante a sua bagagem o seja e utilize instrumentos tradicionais como piano, cello, violino, viola, harpa, entre outros, o resultado é uma música de delicadas texturas que, mesmo sendo tributária da tradição, não recusa as intervenções atonais e o emprego de bateria, percussão, tapes e mesmo de guitarra e baixo elétrico, quando isso lhe parece apropriado. Porém, o som de Rachels tende sempre à delicadeza e ao intimismo, conforme é possível conferir em seus discos anteriores: Handwriting (1995), Music for Egon Schiele (1996) e The Sea and the Bells (1996). Selenography não é exceção: um CD atmosférico, belo, sutil, com música atemporal feita por músicos inteligentes, competentes e criativos. Por isso mesmo, é o tipo do disco que nunca vai ser editado no Brasil. Mas - concordarão com isso ouvintes exigentes e refinados que o encomendarem - vale cada dólar gasto em sua importação.
Cult movie
Há muito ausente da programação dos canais abertos (a Globo costumava reprisá-lo nas madrugadas, depois parece ter esquecido do filme), Videodrome - A Síndrome do Vídeo (1982), de David Cronenberg, é o cartaz do Telecine 2, da Net, no próximo sábado, às 21h15. À frente do elenco, James Woods faz o papel do programador de uma estação pirata de TV que começa a ter alucinações por causa de estranhas transmissões cuja origem tentará localizar. Uma das mais perturbadoras realizações do diretor canadense (cujo último longa, eXistenZ, continua inédito no Brasil), Videodrome tem a seu favor um ótimo roteiro original (assinado pelo próprio cineasta) que, gradativa e habilidosamente, vai intensificando um clima opressivo, quase paranóico, onde o horror não deriva de uma causa sobrenatural (diga-se de passagem, isso nunca acontece nos filmes de Cronenberg), mas das possibilidades da tecnologia criada e manipulada pelo ser humano, bem como dos aspectos mais soturnos e secretos de sua mente. No elenco, além de Woods, comparecem Sonja Smits, Peter Dvorsky e a líder do grupo Blondie (recentemente reativado), Deborah Harry.





