Wilmar Klein
Tenho consciência de que, no dia-a-dia, no bate-papo, cometo vários atentados contra a última flor do Lácio, colaborando para torná-la ainda mais inculta e menos bela. Não chego a dizer barbaridades como, por exemplo, menas gente ou a perguntar se dá pra mim fazer alguma coisa, mas digo que fulano vive às custas de beltrano (o correto é à custa) e a sicrano que largue do meu pé (o certo é largue o meu pé, e mais certo ainda é nem pegar no meu pé). Digo também que o fulano acima é um parasita (quando o correto é dizer que ele é um parasito) e que (tão logo sicrano atendeu ao meu pedido) revidei um pontapé (eu deveria revidar a um pontapé, mas, em face à agressão, perdi a cabeça e a preposição). Tais atentados, cometo-os em nome da coloquialidade, para ser melhor entendido pelo verdureiro e para que a dona Creuza, da portaria do prédio onde moro, não pense que eu sou um sujeito metido a besta.
Não há quem não cometa impropriedades linguísticas. Preste atenção às declarações dos prefeitos, dos governadores, do presidente da República. Acaso eles não vivem falando (geralmente, só falam) em criar novos empregos? Agora me diga se dá para criar velhos empregos ...
E quantas vezes não ouvimos alguém dizer que assistiu um filme bacana (um farvestão, p. ex.), que o motorista dormiu no volante, que visou o lucro, que torce para o Corinthians ou para o Palmeiras, que saiu devagarinho, que sua casa está situada à rua tal, que está em seu habitat natural ou que chegou a hora da onça beber água? (Esse alguém pode ser eu, você, a sua mãe ... com todo o respeito.) E o correto é assistir a um filme, não cometer a redundância de estar num habitat natural (pois habitat já significa ambiente ou meio natural), não sair devagarinho (quando cometer um erro grosseiro), lembrar que o sujeito não pode vir contraído com preposição (portanto, chegou na hora de a onça beber água). De resto, não durma ao volante, não vise ao lucro o tempo todo (a menos que você seja um capitalista da velha escola) e fique à vontade para torcer pelo Corinthians ou pelo Palmeiras (o problema é seu). Ah, sim... o prédio em cuja portaria a dona Creuza trabalha está situado em Curitiba, na Rua Desembargador Westphalen (só não forneço o número para não dar pobrema pra dona Creuza), mesmo porque construíram o prédio nesta rua (e não a esta rua).
P.S. - Sei que, ao escrever o texto acima, dei minha cara a tapa, pois, mesmo tomando todo o cuidado, provavelmente deixei passar alguma impropriedade (ou várias). Estas, porém, seriam em maior número se não tivesse consultado um manual (no caso, o Não erre mais!, do professor Luiz Antonio Sacconi, da Universidade de São Paulo), de onde extraí a maioria dos exemplos (e das correções) que ofereci.
Um segundo P.S. (diante do qual o leitor tem o direito de suspeitar que o escrevi somente para completar a quantidade de linhas reservada a esta coluna): Uma vez perguntei a mim mesmo: qual a mais bela palavra desta nossa língua tão bela e tão estropiada? E nunca cheguei a uma conclusão que me permitisse responder satisfatoriamente a esta pergunta. Entretanto, se quiserem saber quais são, na minha opinião, as palavras mais feias da língua portuguesa, ei-las: canhenho e lornhão - ou seja, caderno de apontamentos e aquele antigo instrumento de óptica que os franceses chamam de lorgnon, formado de dois vidros engastados numa armação e que se colocava sobre o nariz. Sempre associo estas palavras - lornhão e canhenho - a uma velha míope e banguela ...





