A contar de hoje - e se não errei na conta - faltam 648 dias para acabar o século, o que, na prática, equivale a igual número de oportunidades de não vê-lo acabar. Dentre os que anteriormente aproveitaram a definitiva oportunidade, selecionei - listando-os em ordem alfabética - uns poucos que, no campo das artes (e, eventualmente, no das ciências, do pensamento e da ação direta), colaboraram para tornar este século menos lamentável e menos medíocre do que poderia ter sido sem a presença deles.
Minha intenção não é lamentar essas ausências por si mesmas, e sim o fato de que o ‘‘quórum’’ proporcionado pelos que restaram (salvo uma ou outra honrosa exceção) não é lá grande coisa. Contraponho a isso a minha lista, cujos integrantes nem sempre são tão óbvios a ponto de merecer inclusão no rol dos ‘‘homens que fizeram o século’’. Alguns, aliás, figuram nela menos pela unanimidade quanto ao valor da sua contribuição do que pela importância que, por qualquer razão pessoal, lhes conferi.
A de (Guillaume) Apollinaire, que libertou a poesia dos ‘‘staccatos’’ da pontuação e da rigidez horizontal dos versos. A de (Antonin) Artaud, que tornou mais próximos o teatro e o grito ...
B de (William S.) Burroughs, inventor do ‘‘cut-up’’ e da arte de sobreviver às drogas pesadas, escritor do século 21 que por acaso viveu no século 20 (revejam-no em ‘‘Drugstore Cowboy’’, de Gus Van Sant, e ouçam-no nos álbuns ‘‘Hallucination Engine’’ e ‘‘Seven Souls’’, do grupo Material). B de (Jorge Luis) Borges, que ensinou aos seus leitores as possibilidades mágicas não apenas de espelhos e labirintos, mas também dos prefácios e notas de pé de página para livros imaginários; Borges, o melhor escritor do século 19 que viveu neste nosso século. E, ainda, B de (Samuel) Beckett, de (Joseph) Beuys, de (Luis) Bu¤uel ...
C de (Albert) Camus, de (Adolfo Bioy) Casares (amigo e parceiro de Borges), de (Jean) Cocteau (menos o poeta - que acabou assimilado pela vetusta Academia Francesa - mais o cineasta que dirigiu ‘‘O Sangue de um Poeta’’, ‘‘Orfeu’’, ‘‘O Testamento de Orfeu’’). C de (Arthur) Cravan (precursor dos dadaístas e dos surrealistas que fez do humor e da atitude formas de terrorismo contra a arte burguesa, dissociada da vida); C de (Noel) Coward, de (Al) Capp (o criador de Lil’Abner - no Brasil, Ferdinando - um desenhista de histórias em quadrinhos que merecia ter ganho o Prêmio Pulitzer, conforme certa vez o escritor Jonh Steinbeck sugeriu; C de (Emil M.) Cioran (talvez o mais ‘‘dark’’, o mais radical e, não obstante, o mais humano dentre os pensadores pessimistas do nosso tempo) e - por que não? - C de (Al) Capone (afinal, nem gângsteres se fazem mais como os de antigamente) ...
D de (Salvador) Dali, de (Milles) Davis, de (Carl) Dreyer, de (Jean) Dubuffet, de (Marcel) Duchamp (depois de quem a arte nunca mais foi a mesma) ...
E de (Sergei) Einsenstein, de (T.S.) Eliot, de (Max) Ernst. E de alguém cuja lembrança agora me dói ...
A lista deve prosseguir. As reticências no final de cada parágrafo dela indicam a possibilidade de acréscimos, assim como a precariedade da memória e da própria existência. Encerro as linhas de hoje reafirmando a minha convicção de que toda morte é uma estupidez, mas também o é, sob vários aspectos, a sobrevivência.

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