Wilmar Klein
Mérito comum da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música, bem como da filosofia e da ciência (se, no fim das contas, tudo isso não for completamente inútil), é o de propiciar leituras da realidade - leituras que, convém observar, não precisam ser necessariamente realistas para apreendê-la. Aliás, excesso de realismo afigura-se, no mais das vezes, coisa estranha e não raro produz efeito meio surrealista (proteção talvez contra o fato, assinalado por T.S. Eliot num dos Quatro Quartetos, de que o gênero humano não suporta muita realidade). Seja como for, qualquer leitura é valida se der notícia de alguma realidade, mesmo - ou principalmente - se esta se mostrar, paradoxalmente, artificial.
Apreender a realidade, como se sabe, é uma proposta embutida na filosofia desde quando ela ainda engatinhava e se confundia com arte, ciência (incipiente) e religião. Partia-se do princípio - ainda válido - de que havia uma realidade para além da que é filtrada pelos precários sentidos do homem (não enxergamos, nem ouvimos, nem percebemos através do tato e do olfato tão bem quanto a maioria dos outros animais). Com isso, criou-se, por exemplo, o mito de que, por vias místicas, a percepção da realidade poderia ser estimulada até o ponto em que franquearia o acesso a uma realidade transcendental. Daí os iluminados de todas as épocas, que, afinal, nunca conseguiram tornar mais branda e aprazível a passagem trágica do homem por este planeta. ( Observação: passagem, aqui, é meramente uma expressão sem o compromisso de significar passagem para algum lugar, como é crença confortadora.)
Realidade, vale acrescentar, é uma noção que se associa com muita facilidade à idéia de natureza. Em certa medida - e muito grosseiramente - se crê que apreender a realidade é apreender a natureza. Porém, como constatava Heráclito de Éfeso (ei-lo novamente citado), há cerca de 2.500 anos, a natureza gosta de esconder-se, e com esta observação entrava no mérito dos modos de apreensão da realidade.
Ora, o que chamamos realidade não é uma coisa unívoca e as configurações da natureza, tal como as percebemos, distorcem-na. Não que possamos saber exatamente o que foi distorcido. Quando muito, o que podemos é fazer leituras da realidade, criar modelos segundo os quais buscamos - ainda que muito parcialmente - apreendê-la. E é isso o que fazem as artes, a ciência, a filosofia. O que se poderá apreender é muito pouco, na verdade, e a via místico-religiosa funciona apenas como uma maquiagem para a nossa errância no ininteligível.
P. S.: Até por uma questão de coerência com o que disse acima e ofereço à reflexão, só muito informalmente e sem qualquer rigor se deveria falar de vida real, mesmo porque nunca se soube direito o que é isso e, de resto, até desconfio que ninguém é tão real quanto crê ou pretende fazer crer. Em todo caso, parece-me oportuno parodiar o que Aldous Huxley, num de seus ensaios, escreveu a propósito da matéria: isso que chamamos realidade pode ser uma ilusão, mas é uma ilusão crônica.





