Wilmar Klein
Até sua indicação para o Grammy, na categoria crossover clássico, pelo álbum que gravou em parceria com a violonista americana Sharon Isbin, Journey to the Amazon, o percussionista brasileiro Gaudêncio Thiago de Mello permanecia, enquanto músico, como completo desconhecido em seu próprio país (talvez alguém com memória privilegiada, não obstante a idade já avançada, consiga lembrar que Gaudêncio, irmão do poeta Thiago de Mello, atuou no futebol carioca, como técnico - isso há quase 40 anos). Fonograficamente, porém, o trabalho deste percussionista criativo, que faz música com madeiras e sementes nativas do Amazonas, potes de barro, etc., pode continuar inédito no Brasil. Não será a primeira nem a última vez que isso acontece.
(Um outro exemplo: há meses, Tom Zé teve seu último disco, Com Defeito de Fabricação, lançado nos EUA pelo selo Luaka Bop, do cantor e compositor David Byrne, saindo em seguida na Europa e no Japão, e recebendo rasgados elogios da crítica, bem como espaços privilegiados em publicações como a Rolling Stone, a chique Ray-Gun - americanas - e a inteligente The Wire - inglesa - e isso para mencionar apenas três. Em nosso país, no entanto, nenhuma gravadora, até o momento, se interessou em lançar o CD - afinal, Tom Zé tem fama de maldito, anticomercial, e ainda mais com um trabalho cujo título poderia sugerir a algum debilóide tupiniquim que o disco tem, de fato, um defeito de fabricação...)
Para Gaudêncio Thiago de Mello, que vive em Nova York há 35 anos, a saída foi o aeroporto. Outros percussionistas notáveis - Naná Vasconcelos (que só volta ao Brasil quando da realização, em Salvador, das edições anuais do Percpan - Panorama Percussivo Mundial, dirigido por ele e Gilberto Gil), Cyro Baptista, Airto Moreira e Dom Um Romão, respeitadíssimos lá fora - fizeram o mesmo, e assim também as cantoras Flora Purim e Rosa Motta (cito uns poucos nomes que me vêm à mente sem esforço, mas existem dezenas de outros). Quanto a Tom Zé, tem mais prestígio no exterior do que aqui. Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, também. Que dizer da cineasta Iara Lee, que é paranaense, diretora de Prazeres Sintéticos e Modulations (unanimemente considerado o melhor documentário sobre música eletrônica realizado até hoje), dona -em NY, onde vive há anos - da Caipirinha Records, uma gravadora que só investe em músicos altamente inventivos, que fazem no presente a música do próximo milênio...? E ainda: mostre a um finlandês (ou a um dinamarquês, ou a um alemão) musicalmente culto e sem preconceitos a música de Itamar Assumpção (mais cosmopolita que a de Tom Zé, diga-se de passagem), de Arrigo Barnabé, de Jards Macalé, do falecido experimentalista suíco-baiano Walter Smetak (uma espécie de Harry Partch que criava instrumentos incríveis e uma nova dimensão sonora num porão da Universidade da Bahia), dos grupos Uakti e Mestre Ambrósio (uma das poucas coisas realmente consistentes do supervalorizado balaio musical pernambucano do momento, Mestre Ambrósio tem pronto, desde o ano passado, um novo álbum que sua gravadora - mais interessada em contratados medíocres porém de fácil aceitação popular - até agora não quis lançar)... Como eu ia dizendo, mostre a um europeu musicalmente esclarecido e afinado com o seu tempo os trabalhos desses músicos e ele os classificará como obras sérias, com altos teores de criatividade e, por isso mesmo, dignas de toda a atenção.
No Brasil, em contrapartida, a ordem é, cada vez mais, nivelar por baixo, homogeneizando o gosto e emburrecendo o público, sonegando-lhe informação e a possibilidade de uma evolução cultural, e com isso deixando o pasto livre para aqueles que, vergonhosamente, exploram a ignorância nacional. Para conferir o resultado e avaliar a extensão da indigência cultural do país, é só ligar o rádio ou a TV.
P.S.: Pensando melhor, é preferível mantê-los desligados.
P.P.S.: E se não compactuar com a burrice e a mediocridade vigentes é ser elitista, continuo fazendo questão de ser bem elitista, ainda que eu e talvez você sejamos os últimos a preservar tal atitude.





