Nenhum livro de filosofia escrito neste século exerceu em mim maior influência do que a ‘‘Lógica do Pior’’ (Presses Universitaires de France, 1971; tradução de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes, Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989), de Clément Rosset, o que explica a frequência com que o tenho citado em meus textos. O tema central de Rosset (notadamente neste livro e em sua obra subsequente, ‘‘A Antinatureza: Elementos para uma Filosofia Trágica’’, de 1973) é o acaso, entendido não como ‘‘interseção imprevisível, mas não irracional, de várias séries causais independentes’’, mas como ‘‘acaso original, conceito silencioso e trágico’’, ‘‘um x anterior a toda idéia de ordem ou desordem’’ e, por conseguinte, anterior à idéia de necessidade. O que Rosset chama acaso é, na verdade, o fruto de uma constatação empírica: a soma dos ‘‘brancos’’ que aparecem cada vez que se faz alusão à necessidade. ‘‘Tudo se demonstra a partir da necessidade, e nada demonstra a necessidade.’’ Conclusão: ‘‘o acaso não é mostrável porque a necessidade não é nunca mostrada.’’
A maneira como o autor da ‘‘Lógica do Pior’’ entende o acaso tem desdobramentos radicais, colocando em xeque as noções de ‘‘natureza’’ e ‘‘ser’’. ‘‘O problema’’, diz Rosset, ‘‘é saber se, no conjunto do que existe, existe, não propriamente uma natureza, mas pelo menos certos conjuntos de seres aos quais poderia ser aplicada a expressão ‘naturezas’. A condição requerida para o reconhecimento de tais naturezas é que o poder do acaso - ou do hábito, do costume, da aprendizagem, enfim, de tudo o que pode ser considerado como ‘circunstância’ adjacente - detenha-se nas fronteiras de ‘alguma coisa’ que, previamente à possibilidade de tais intervenções, existe. Assim, as naturezas humana, vegetal ou mineral exigem, para existir, que esteja contida nelas alguma coisa que transcende toda circunstância. Ora, o pensador do acaso’’ (Rosset classifica como pensadores do acaso, entre outros filósofos, Lucrécio, Montaigne, Hume, Nietzsche) ‘‘afirma que ‘o que existe’ é exclusivamente constituído de circunstâncias; que os conjuntos relativamente estáveis que trazem, por exemplo, o nome de homem, de pedra ou de planta representam certas sedimentações de circunstâncias (...), organização de generalidades casuais e instáveis (tão casuais e instáveis quanto cada uma das singularidades das quais são constituídas); sedimentações que somente a brevidade - em todos os sentidos da palavra - de uma perspectiva humana permite encarar como generalidades, conjuntos, naturezas’’ (pp.100 e 101 - os grifos são meus).
Clément Rosset decreta a falência de qualquer tentativa de racionalizar ou de justificar o real, de toda empresa filosófica que vise ‘‘fazer aparecer relações constantes e dotadas de inteligibilidade, de toda lógica da ordem, da sabedoria e da razão; falência também da ideologia e da interpretação (esta, delírio; aquela, discurso sobre não-seres recobrindo o nada); e, em contrapartida, celebra a ‘‘diversidade do olhar - visão do múltiplo que, levado a seus limites, torna-se cego’’ - cegueira que consiste em não ver nada que seja da ordem do pensável e do designável - ‘‘culminando numa espécie de êxtase perante o acaso’’. A realidade, para Rosset - assim como para o Nietzsche da ‘‘Gaia Ciência’’ - é, a um tempo, infra-racional e transcendente a toda interpretação; do mesmo modo, o é toda a alegria de viver, fatalmente comprometida quando se pretende ‘‘substituir a simplicidade caótica da existência pela complicação ordenada de um mundo’’.

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