Wilmar Klein
MEXINFLÓRIO
ReproduçãoUma sociedade culta pode ser avaliada pelo volume de inutilidades que produzSempre chamou-me a atenção a quantidade de sinônimos existentes na língua portuguesa para a palavra ninharia: babugem, bagatela, borra, bugiaria, bugiganga, burundangas, cascavel, frioleira, futilidade, inânias, maravalhas, mugiganga, nada, nica, nonada, nuga, ossos de borboleta, palha, quiquiriqui, trampa, trica, tuta-e-meia e, consignados como brasileirismos, bagana, bolacha-quebrada, chorumela, gueta, mexinflório, minigâncias, quixilingangue. Um tal volume de sinônimos (e convenha-se que nem sempre é possível dicionarizar todos) leva a concluir que, paradoxalmente, conferimos grande importância às ninharias (quase tanta quanto à cachaça, que tem 151 sinônimos registrados no ‘‘Aurélio’’, e bem mais do que à maconha, que no mesmo léxico comparece com 21). Como explicar isso? Arrisco aqui uma hipótese, aplicável aos brasileiros, que, afinal, contribuíram com a maioria desses sinônimos: nosso povo dá importância às ninharias porque, em geral, é tudo o que tem e com elas acostuma-se desde cedo, chegando mesmo a afirmar, a título de consolação, que o pouco com Deus é muito. Obviamente, uma tal afirmação perde toda a sua força quando o brasileiro recebe o cheque do seu pagamento (isso quando tem o que receber, pois o mais fácil é ficar endividado, como, de resto, o seu próprio país). Ainda assim, como sempre, tudo segue às mil maravalhas.
Há, no entanto, um plano mais elevado de considerações, dentro do qual as futilidades, os nonadas, etc., adquirem um valor verdadeiramente significativo, como índices de um estágio mais avançado de civilização (que nós, deste lado do hemisfério, infelizmente não atingimos). A exemplo do progresso material, que pode ser medido pela quantidade de lixo produzido (quanto mais lixo se tem para jogar fora, maior a riqueza), uma sociedade realmente avançada, culta, refinada pode ser avaliada pelo volume de inutilidades que produz e digere, pois isso significa que superou o estágio primitivo em que a prioridade é a sobrevivência. Uma vez que esta esteja assegurada, as pessoas evoluídas sentem-se inteiramente livres para coisas mais relevantes como assistir a televisão, navegar na Internet, consumir fast food, jogar videogame e torrar a grana nos shopping centers. Isso sem falar que têm suficiente tempo disponível para produzir música, literatura, cinema e outras artes de modo absolutamente descartável, dedicar-se à concupiscência e investir no autoconhecimento, mediante consultas ao analista, adesão a seitas exóticas e consumo de drogas, ou seja, coisa de Primeiro Mundo. (É bem verdade que nós brasileiros - e é bom que eu diga isso, para que não pensem que sou antipatriótico - temos nos esmerado para chegar lá, e sem precisar recorrer ao aeroporto: apesar de nossas mazelas, produzimos, a cada dia, um maior número de inutilidades, de ninharias, destinadas a estimular o consumo e o bem-estar da Nação. Trata-se de um esforço conjugado no sentido do redirecionamento das prioridades nacionais e, ao mesmo tempo, de uma maior valorização do que é nosso: o futebol, a cachaça, o Carnaval, o pagode, o axé, a música sertaneja, as telenovelas, o ‘‘jeitinho brasileiro’’, perante os quais o mundo se curva, reconhecendo o nosso valor. E isso é para quem pensa que somos pouca porcaria...)

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