Nenhuma virtude tenho em maior conta do que a sinceridade, talvez porque de outras, quando não as despreze, não possa alegar senão arremedo. Dela o escritor político alemão Ludwig Börne (1786-1837) disse que é ‘‘a única maneira de enganar que às vezes tem êxito’’; o italiano Pitigrilli (1893-1975), por sua vez, considerou-a ‘‘um ato regressivo’’: ‘‘um retorno à natureza, ao estado selvagem, como o andar descalço e o comer pegando alimentos com as mãos’’. E o autor de ‘‘Mamíferos de Luxo’’ e ‘‘Ultraje ao Pudor’’ arrematava: ‘‘Cinco mil anos de civilização devem ensinar-nos a usar sapatos, os talheres e as mentiras’’. Em todo caso, convém, até por uma questão de sobrevivência, concordar com Oscar Wilde: ‘‘Pouca sinceridade é perigosa; muita é absolutamente fatal’’.
O problema não está em atender à conveniência de não ser tolo por excesso de franqueza, e sim em ser hipócrita por excesso de conveniência. É o que frequentemente acontece quando a ela se ajuntam a vaidade e a ambição, as quais não elidem necessariamente o temor e a subserviência.
A vaidade conduz à mentira sistemática. O vaidoso mente para si e sobre si, e sua mentira será mais ampla quando, à força da repetição autopersuasiva, acabe por acreditar nela; e mente aos demais, inflando-lhes a vaidade para que a sua própria mereça retribuição.
A ambição faz da mentira e da dissimulação instrumentos para atingir seus objetivos. Tão logo se convencem de que os fins justificam os meios e experimentam os primeiros êxitos, os ambiciosos perdem qualquer pudor de utilizá-los. Os objetivos, porém, nunca são atingidos, pois a ambição sempre os ultrapassa.
O temor, por sua vez, leva à subserviência, a subserviência leva à adulação. ‘‘Antes cair nas unhas dos corvos do que nas mãos dos aduladores’’, alertava o filósofo grego Antístenes (444-365 a .C.), fundador da escola cínica. A adulação é, porém, moeda falsa que a vaidade não recusa, e o mesmo é avalizar o comércio de mentiras e sancionar o livre trânsito da hipocrisia. ‘‘Todo adulador vive à custa de quem o escuta’’, dizia, com razão, o fabulista Jean de la Fontaine; e ambos - o adulador e quem se compraz em ser adulado - são desprezíveis - o primeiro, por não ser confiável e ter, conforme o provérbio, ‘‘o mel na boca e o fel no coração’’; o segundo, por mediocridade, pobreza de espírito e, mais ainda, por ser ele o servo da próprio vaidade.
Mas a sinceridade impõe-me reconhecer: boa parte do que até aqui desprezei, antes em mim o reconheci e emendei - e é só o que diferencia-me dos vários espécimes da fauna dos hipócritas que, por conveniências várias, mantêm-se refratários à possibilidade de reforma. E nem será de estranhar que a rejeitem, pois esse moderno sucedâneo da religião que é a busca do sucesso a qualquer preço não raro os recompensa -e tanto mais quanto menos pruridos morais tiverem - mediante a conquista de cargos, honrarias e ascensão social e financeira, que para eles tornam-se a própria razão de existir. Apresento-lhes, pois, por essa vidinha medíocre e bem-sucedida, as minhas mais sinceras náuseas.

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