Verbete inencontrável (por inexistente) na maioria das enciclopédias (mesmo as mais modernas e volumosas), Arthur Cravan (cujo verdadeiro nome era Fabian Lloyd) em geral comparece nas histórias das vanguardas do século 20 como modesta nota de rodapé, não obstante dadaístas e surrealistas o considerassem um de seus antecessoras. Personagem extravagante e cosmopolita que se auto-intitulava sobrinho de Oscar Wilde, Cravan publicou em Paris, de 1913 a 1915, a revista ‘‘Maintenant’’, que ele, à margem das editoras e livrarias, distribuía pessoalmente nas ruas, num carrinho de feirante. Nela, exaltava os feitos de boxeadores e outros esportistas, ao mesmo tempo em que ridicularizava intelectuais e artistas. Sujeito de compleição atlética, ele próprio dedicou-se ao boxe.
Certa vez, já em 1916 (ano em que surge o primeiro núcleo dadaísta, em Zurique), enfrentou um pugilista negro na Praça de Touros Monumental, em Barcelona. Como sabia não ter nenhuma chance contra o adversário, bem mais forte e habilidoso do que ele, entrou no ringue completamente bêbado e foi nocauteado logo no primeiro round. Noutra ocasião, em Nova York, foi convidado a fazer uma conferência sobre o humor e, novamente bêbado, mal subiu ao palco e começou a tirar a roupa. A ‘‘distinta platéia’’, escandalizada, às pressas evacuou a sala e entrou a polícia para levar Cravan em ‘‘cana’’. Duas apenas, dentre as várias histórias que, fazendo valer o seu profundo ‘‘sentido de provocação’’, ele protagonizou nos muitos lugares por onde passou.
A mais estranha dessas histórias - e a última de que se teve notícia - aconteceu no México (país onde casou-se com a poetisa norte-americana Mina Lloyd, cujo nome de solteira nunca consegui descobrir): certo dia, em 1919, Cravan mete-se num bote e desaparece no Golfo, sem deixar vestígio.
Considerando o ‘‘currículo’’ desse irriquieto personagem, sempre me perguntei por que nunca fizeram um filme sobre a sua trajetória, especulando, inclusive - uma vez que nem seu corpo e nem o bote com o qual desapareceu jamais foram encontrados -, sobre a possibilidade de Cravan ter vivido, por assim dizer, uma segunda vida (mais ou menos como Rimbaud quando decidiu abandonar a poesia e foi ser contrabandista de armas na Etiópia). Na verdade, eu nunca soube sequer da existência de alguma biografia de Cravan (se existe, caiu por certo no esquecimento, como, aliás, o próprio biografado). Essa relativa carência de dados biográficos (substituídos por um acervo anedótico) e o fato de sua herança - digamos - ‘‘literária’’ se resumir em uns poucos artigos (cuja consulta, hoje em dia, implicaria em uma laboriosa ‘‘garimpagem’’) contribuem, no entanto, para conferir a esse protodadaísta (e, como queriam - com menos razão, no meu entender - André Breton e outros de sua escola, também proto-surrealista) uma aura mítica. O que resta, efetivamente, de Cravan é o registro de sua atitude - anárquica, subversiva, iconoclasta -, cuja alvos eram as instituições burguesas e a arte e as reputações colocadas em pedestais. Uma atitude de vitalidade que esses tempos chochos de agora, de gostos e comportamentos cada vez mais homogeneizados, deveriam redescobrir e praticar como antídoto ao conformismo.

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