Wilmar Klein
No texto de abertura de seu livro Meu Último Suspiro (1), o cineasta espanhol Luis Bu¤uel, então com 82 anos de idade, lamenta-se da fragilidade de sua memória, que, segundo ele, começara a dar mostras de precariedade e tornar-se pouco confiável quando tinha 70 anos. Como não precisei esperar tanto para experimentar os mesmos aparentes prejuízos, tenho ultimamente comprado pílulas para ajudar a memória, porém esqueço de tomá-las e já estou próximo da situação do protagonista de uma piada que (para defender-me de meus próprios pânicos através do riso) Bu¤uel costumava contar.
Um sujeito vai ao psiquiatra e se queixa de perturbações de memória, de lacunas. O médico faz uma ou duas perguntas rotineiras e depois lhe diz:
- E então? E essas lacunas?
- Que lacunas? - pergunta o paciente.
Não se pense, no entanto, que, a exemplo do que em relação à dele fazia o diretor de Un Chien Andalou, LÂge dOr (2), entre outros clássicos, lastimo o fraco desempenho da minha memória, primeiro porque aprende-se a conviver com isso e, segundo, porque de bom grado assinaria estas palavras do escritor Jules Renard: Possuo uma memória verdadeiramente prodigiosa: esqueço-me de tudo. E isso, sobre ser muito cômodo, permite-me acreditar que o mundo se renova de propósito para mim, a cada instante. Terceiro: graças àquilo que esqueço, vou descobrindo em mim um insuspeitado talento para a fabulação, do qual resulta inventar minhas próprias lembranças, não por má-fé ou gosto pela mentira, mas, como mais tarde às vezes descubro, porque involuntariamente misturo minhas lembranças de coisas vividas com outras do que apenas imaginei ter vivido e agora parecem-me verossímeis. Em decorrência dessa mistura, obtenho não raro um híbrido de realidade e ficção, invertendo e recombinando fatos, épocas, lugares e pessoas, mesmo quando julgo estar sendo fiel às minhas recordações. Se já não posso confiar na minha memória, posso ao menos divertir-me com ela.
Uma outra vantagem é que com muita facilidade esqueço os agravos, o que impede-me de ser rancoroso e, em geral, dispensa-me do compromisso de dar o troco a quem acaso possa ofender-me. (É bom que se diga: no mais das vezes, sentimo-nos ofendidos porque à nossa própria vaidade se contrapõe a alheia, ambas injustificadas.) Pelo mesmo motivo, corro menor risco de ser hipócrita, fingindo conceder demasiada importância a mim mesmo e ao que faço. E mais: porque é limitado o meu acervo de lembranças, mais leve é o fardo das que carrego no presente e menor o meu estoque de idéias preconcebidas (com as quais se fabrica a intolerância, se enrijece o espírito e se fecha a porta às novas descobertas).
P.S.: Certamente colho outras vantagens em face à precariedade da minha memória, mas, no momento, esqueci complemente quais sejam. E, de resto, bem que eu gostaria de lembrar onde foi que coloquei o disquete no qual pretendo enviar este texto à Folha.
(1) A idéia era mencionar aqui a editora, o tradutor e o ano da publicação da obra. Adivinhe se não esqueci o livro em casa na hora de redigir esta nota ...
(2) No ano passado, a distribuidora Continental, de São Paulo, lançou uma caixa com cinco fitas de vídeo, O Surrealismo e o Dadaísmo no Cinema, da qual fazem parte estes dois filmes de Bu¤uel, bem como O Sangue de um Poeta, de Jean Cocteau - e, para mim, é quase um milagre conseguir lembrar disso.





