Wilmar Klein
Pedro, meu tio-avô do lado italiano da família, tinha um narigão à la Cyrano, inchado e avermelhado pelo vinho e pela cachaça, não obstante fosse pálido, macilento o restante do seu rosto. Enrugado como um salame calabrês, sempre pareceu mais velho do que realmente era; por isso, perguntado sobre a sua idade, declarava logo uns vinte anos a mais para obter como retorno comentário do tipo puxa, como o senhor está bem conservado! (daqui a muitos anos - espero -, se estiver parecido com um maracujá de gaveta, estejam certos de que usarei o mesmo expediente).
Mulheres, pescarias, cartas e corridas de cavalos eram suas paixões, mudando a ordem de preferências conforme a ocasião, mas todas elas acompanhando-se da bebida, que, para ele, talvez fosse a única coisa indispensável (tão grande é a incidência de casos de alcoolismo em minha família - tanto do lado italiano quanto do lado alemão - que melhor diria que temos um pé de cana em lugar de árvore genealógica).
Pedro foi primeiro dono de bar; depois, marceneiro - e dos bons. Móveis, fazia-os com esmero de fino artesão e encomendas nunca lhe faltaram; porém, que não o apressassem: a bem da verdade, só trabalhava de acordo com a necessidade de dinheiro e, se estivesse abonado (como se dizia antigamente), de bom grado esquecia o ofício em favor dos chamados prazeres mundanos. Tinha-os em vista, como de hábito, quando convidou-me, certa noite já bastante recuada no tempo, para acompanhá-lo a um baile. Ao menos, era esta a idéia original...
Estávamos passando uns dias em Guaratuba, final de ano, e a idéia era ir ao Iate Club. No entanto, sujeito simples, rapidamente mudou de plano durante o trajeto (cismou que não estava adequadamente vestido, que não ia se sentir bem em meio àquela gente, etc.) e optou pôr uma casa de samba que, na época, existia em Brejatuba. Tomamos um táxi até lá, mas, logo ao chegar, verificamos que o lugar estava lotada, sem nenhuma mesa disponível, e perguntamos ao motorista - um crioulo grandalhão e sorumbático - se ele conhecia algum lugar animado, porém menos cheio.
Há ocasiões em que você se arrepende de pedir e acatar sugestões, e aquela foi uma delas, pois fomos parar, uns 16 quilômetros depois, quase em Garuva, num bordel de beira de estrada, porta com taramela, troncos de árvores envernizados no meio do salão (à guisa de decoração), mulheres feias com maquiagem pesada e vulgar, perfume barato, adocicado, gente bêbada e mal-encarada, e, de quebra, rolava no gravador fitas com músicas do Amado Batista, Gretchen, Agnaldo Timóteo, Genival Lacerda... Pior: o motorista, que alegou outra corrida já tratada, só voltaria dali a três ou quatro horas para nos apanhar.
Preferindo, em nome do decoro, dispensar o distinto leitor dos detalhes do porre (à base de rabo-de-galo) que meu tio-avô e eu tomamos naquele lugar, passo à etapa seguinte da nossa odisséia, com a volta do táxi, já madrugada. Entramos no carro e, não contente com o episódio do bordel, meu parente indaga ao motorista se ele sabia de algum baile ali por perto. E o crioulo, solícito:
- Vocês conhecem o Baile do Sarga?
O nome, aos meus ouvidos, soou de mau jeito, mas, para o meu tio-avô, deve ter soado de modo muito atraente, pois sem pestanejar mandou tocar para lá. Assim, uns dois ou três quilômetros adiante, o taxista tomou uma estradinha de areia, sem nenhuma iluminação e que se ia estreitando cada vez mais.
E atravessa mato e atravessa mangue, e nada, nem sinal de um lugar onde pudesse acontecer um baile. Esse cara vai nos assaltar, Pedro deve ter pensado, pois alternadamente olhava apreensivo para mim e para a porta do carro. E foi quando já nos preparávamos para saltar do táxi e sair correndo que chegamos em frente a uma casa tosca, de madeira, numa praia deserta.
Um baile de pescadores - mais precisamente, um forró, com direito a sanfona, triângulo e zabumba. Detalhe importante: meu tio-avô e eu éramos os únicos branquelos naquele fim de mundo. Pedro cochichou-me: Se a gente inventar de dançar com alguma dessas mulheres, vai acabar morto. Portanto, em desvantagem, o recurso foi parecer simpático aos pescadores, pagando-lhes rodadas de cachaça. E assim amanheceu o primeiro dia de um ano que, distante, não lembro qual foi. Salvo engano, nunca mais saí, noite afora, com meu tio-avô Pedro, que, tempos depois, partiu desta para melhor, vítima de sua intemperança e do seu excesso de entusiasmo pelos prazeres mundanos.





