Wilmar Klein
... e havia o cine Palácio,
o cine Ópera,
o Avenida,
os antigos Ritz, Luz, Morgenau e outros
que (não fosse a precariedade da minha memória,
eu seria mais nostálgico)
agora já não vou lembrar.
Cinemas de uma Curitiba sem calçadões, canaletas de expresso, acrílicos.
Tanto quanto a minha memória o permite (e o que, por falível e desbotada, não permite, invento, reconstituo por verossimilhança), lembro do cine Curitiba, ali na Voluntários da Pátria. Programa dos domingos da minha infância ... sessões corridas, velhos seriados (Flash Gordon, Tarzan, Jim das Selvas), faroestes, aventuras, ficção científica cheia de defeitos especiais - clássicos de outra ordem. Cartazes de cores berrantes, fotografias em preto & branco, garotos trocando gibis. Dentro do cinema, cortinas espessas de veludo vermelho, a palavra bonbonniSre escrita em néon, um freezer com Coca-Cola (então haviam apenas garrafas pequenas, e eram verdes, e o líquido tinha muito mais gás), e vendiam-se paçoquinhas de amendoim (as melhores que já provei) envoltas em um papel liso, transparente, cujo nome nunca aprendi.
As cadeiras da sala de exibição, no primeiro pavimento, eram de madeira - não obstante, confortáveis, anatômicas. No segundo, existiam balcões com grandes cadeiras móveis, fazendo lembrar cadeiras de bispos. Como não havia nenhum declive neste pavimento, ficava difícil para uma criança acompanhar o filme quando adultos ocupavam as cadeiras da frente.
John Wayne, que dizimava os índios (nos faroestes de antigamente, os índios eram, via de regra, hostis e Hollywood não tinha nada contra exterminá-los às dezenas, ou mesmo centenas, já que eram apenas meros figurantes), Johnny Weissmuller (o melhor Tarzan de todos), Os Três Patetas (Moe, Larry e Joe), O Gordo & o Magro, Abbott & Costello, Boris Karloff, Bela Lugosi, Sidney Toller (no papel de Charlie Chan), O Fantasma Escarlate (velho seriado da Republic), os filmes do lutador mexicano Santo, Hércules, Maciste, Sansão, Ursus, Flash Gordon e o doutor Zarkov contra o imperador Ming (do planeta Mongo), répteis gigantes destruindo Tóquio, King Kong escalando o Empire State - tudo, mesmo quando era ruim, parecia tão melhor nessa tela do passado. Mas, é claro, uma tal opinião, devo-a à minha memória afetiva, a mesma que coloca pinguim de porcelana sobre a geladeira e toalhinhas de renda nas estantes.
Esta memória tem gosto de algodão-doce, perfume de junquilhos de um jardim desaparecido.





