* Certa vez, um jornalista perguntou a Gandhi o que ele pensava da civilização ocidental. E o líder indiano respondeu: ‘‘Acho que seria uma ótima idéia’’. - De fato, seria, não fosse o que chamamos de civilização meramente uma opinião, fundada no estado atual dos nossos costumes, em nosso domínio das tecnologias e - como observou Remy de Gourmont - no ‘‘cultivo de tudo aquilo que o cristianismo chama vício: frivolidade, prazeres, jogos, negócios e coisas temporais, bens deste mundo etc.’. Paul EugSne Charbonneau completaria: ‘‘O homem destrói-se e isso bastaria para contestar o caráter cristão de uma civilização que o conduz a esse extremo. Há porém mais ainda: Deus foi esquecido. Deus está esquecido porque o senso metafísico se atrofiou: substituíram-no pela inquietude técnica, bem mais acanhada. Erich Fromm notou-o com ironia: a pergunta-chave de hoje em dia já não é ‘por que’ mas ‘funciona bem?.’ Em todo caso, se a civilização é tão-somente uma opinião, Deus - não obstante a fé, ou a alienação, ou como queiram concebê-Lo - permanece como uma hipótese - em última instância, tão pouco razoável quanto qualquer outra que se tenha inventado para explicar a origem e o porquê do universo e das coisas que nele acontecem. Levando em conta os absurdos que, em todas as épocas, foram cometidos em nome de Deus, bem como a comprovada inutilidade da metafísica (só mesmo quem nela nunca tenha procurado se aprofundar é que pode imaginar que ela é capaz de conduzir a alguma forma de conhecimento supra-sensível e ser outra coisa que não um passatempo intelectual, estafante às vezes, mas sempre superficial) - como dizia, levando isso em conta, Charbonneau devia ter se ‘‘tocado’’ que, assim como o materialismo e o progresso tecnológico, também Deus não contribuiu grande coisa para o aperfeiçoamento da civilização - e isso porque, sob muitos aspectos, o homem, que dizem feito à Sua imagem e semelhança, continua sendo a mesma besta de sempre.
* Lê-se no ‘‘Itinerário do Não’’, de Sebastião Rezende (1940-1973) - livro e poeta hoje imerecidamente esquecidos -, este poema tão prosaico como uma poça d’água:
‘‘Limpe os pés
Não entre sem bater
Não fale com o motorista
É proibida a entrada
Só para sócios...
Proibido
Não fume
Aperte a campainha
Espere a sua vez
Não pise na grama
De ordem do Sr. Juiz
Estacionamento proibido
Zele pelo que é SEU
Silêncio
Pague primeiro
Tire as fichas no Caixa
Você pagará multa...
Tire o chapéu.’
Diante de tanto ‘‘não’’, de tanta interdição, tem vontade o cidadão ordeiro de, uma vez na vida, entrar com os sapatos enlameados, ignorando proibição ou exclusividade; pisar na grama, fumar onde não pode, fazer o maior barulho; e depois, rasgar a multa, mandar o juiz às favas e, impávido, sem tirar o chapéu, sofrer as consequências, porém sentindo o gostinho de não ser tão exemplar, tão certinho, tão cordato o tempo todo. Ao diabo com tanto ‘‘não’’.

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