Wilmar Klein
O Thadeu - cujo completo nome inclui um precedente Antonio e um desses patronímicos que, se o sujeito não descende de poloneses e é distraído, nem consegue pronunciar: Wojciechowski - o Thadeu, eu dizia, acaba de lançar o seu 20º livro de poesia, Cri-Me, do qual emprestei o subtítulo para batizar estas minhas maltraçadas. Para quem não conhece o Thadeu (mas será que alguém o não conhece?), seu parceiro Roberto Prado informa, na apresentação da coletânea, que a própria mãe do poeta o confunde com o Frank Zappa e, certa feita , ele perdeu para o Belchior um concurso de imitadores de si mesmo. (Eu já acho que o Thadeu, se colocar as mãos na cintura, passa pelo Ivan Novik, o retumbante vocalista da banda eslovena Laibach - mas poderia ser pior.) Em todo caso, se é que ainda há quem o dito-cujo poeta desconheça, agora perdeu a chance de não conhecê-lo, pois ele resolveu meter a cara em 64 das 72 páginas do livro - ou seja, cada poema traz uma foto diferente do indigitado Wojciechowski, no melhor estilo variações de mim mesmo. Coisa assim eu só vi antes nas balas Zequinha.
Mas deixemos de lado as exterioridades do poeta (não obstante o seu insofismável bigode nietzscheano ) e vamos direto ao seu duodeno - digo, à sua poesia, da qual vão aqui uns dois ou três exemplos colhidos ao acaso:
Dou minhas palavras: Vão, palavras, vão ! / E não é querer dizer / mas já vão tarde. / Cansei de falá-las / aos gritos de alarme / ou de silenciá-las / por nem querer saber. / / Vão, palavras, vão! / Fica o dito pelo não, / pelo sim, pelo menos. / Quem sabe, um dia, / sabê-las aos centos / me valha uma sinfonia / entre pausas e acentos. / / Vão, palavras, vão ! / Significá-las em mim / não pega bem o espírito / de minha alma querubim. / A grande alegria do circo / é o palhaço pegar fogo / e incendiar o público todo. / / Vão, palavras, vão ! / E se esparramem pelo chão. / Para que nunca mais / nenhum de seus radicais / venham a perder o latim / como se falassem grego / e o resto fosse segredo.
noite de primavera
na ausência das cores
os grilos são flores.
neste cais que é a vida
companheiro de bar
não fique a ver navios
pois Curitiba não tem mar
não adianta se matar
nem cortar o seu pescoço
todo galho ou enrosco
é deus que está conosco.
Porém, para falar a verdade, o Thadeu que eu gosto mais é mesmo o poeta que, debruçado sobre o violão, se faz modinheiro e, na companhia de outros poetas amigos (dele e, dos que conheço, também meus) - gente como o Edilson (Del Grossi), o Edson (de Vulcanis), o (José Alberto) Trindade, Walmor (Góes), Roberto (Prado), etc., e, dentre os que já se foram, o Marcos Prado e o (Paulo) Leminski -, tem extensa folha-corrida de escrever bem-humoradas letras de músicas durante rodadas de cerveja e camaradagem - e, de repente, é dia claro. Nesse tranco etílico-poético, segundo estima Edson (Aranha) de Vulcanis, já vieram à tona em torno de umas mil canções (que eles comemoraram entornando e submergindo um pouco mais). Para resumir: o Thadeu da poesia é um indivíduo que (ele o diz num poema) faz anzol de ponto de interrogação e o amarra na linha do raciocínio; e, ficando uma vara por não ter caniço, com ela acha a solução para pescar os versos que, como cadáveres delicados em vinho velho, bóiam em sua imaginação.





