OK, Senhor, que já não mais se façam Natais como antigamente,
que a coisa hoje seja só comércio e se tenha perdido o sentido da data,
primeiro porque não nascestes mesmo no dia 25 de dezembro
(escolheram a data os de Vossa Igreja por conveniência, para coincidir com a festa pagã do solstício de inverno que os europeus ainda comemoravam nos primeiros séculos de Vossa Era e - perdoai a observação - dava mais audiência do que o Vosso natalício);
segundo, porque - a não ser naquela ocasião em que expulsastes os vendilhões do templo - não me consta que fôsseis contra o livre comércio
(é bem verdade que sempre reprovastes as altas taxas de juros,
no que tínheis toda a razão, como de hábito);
e, finalmente, porque já estamos enjoados, Senhor,
de todo esse ‘‘Jingle Bells’’,
de todos aqueles votos e mensagens em que não mais acreditamos,
e já não é de hoje;
e Vos perguntamos por que é que temos de assistir pela enésima vez aos mesmos especiais de fim de ano de Vossos filhos Roberto Carlos e Xuxa
e fazer de conta que, ao menos no dia de Natal,
haverá paz na Terra e existirão homens de boa vontade.
De qualquer modo, Senhor, já é muito que não desconteis em nós
(como Vosso filho Emil Cioran dizia que fazíeis)
o fato de terdes nascido para morrer na cruz, e não num sofá.
Se assim tivésseis expirado, passaríeis à História como filósofo
e não como salvador do mundo.
O que nunca entendi é por que, se tal é Vosso papel,
Deixastes o mundo virar tamanha esculhambação.
É opinião alheia que não compartilho a de que voltareis a este planeta para julgar os vivos e os mortos.
Não Vos incomodeis com isso, deixai quieto,
que temos já muita confusão por aqui sem o corre-corre do Juízo Final.
Se acaso Vós e Vosso Pai e o Espírito Santo
(como sois três em um, conforme o mistério da Trindade, será indiferente que troque as Pessoas, chamando-Vos ora de Onipotente, ora de Cordeiro)
- se Vós, eu dizia, estais arrependido de haver criado este mundo
e seja Vossa intenção destruí-lo, apagando-o do cenário do cosmos,
confiai em que possuímos sobeja capacidade para fazê-lo nós mesmos.
Onisciente que sois, tendes visto que nisso progredimos muito
e a cada dia mais nos esmeramos.
Do que resultará, afinal, não precisardes Vos preocupar conosco,
dispensado-Vos também de verificar quão burocraticamente temos ultimamente comemorado o Vosso advento neste nosso mundo.
Em todo caso, Senhor,
Feliz aniversário.

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