Em outros tempos, as obras de Ernest Hemingway eram os meus livros de cabeceira; e com tanta voracidade eu os li, e tantas vezes eu os desconstruí para tentar aprender a sua ‘‘carpintaria’’ - cada ‘‘prego’’, cada ‘‘junção’’, cada ‘‘tábua’’ ou ‘‘sarrafo’’ -, que acabei decorando trechos inteiros de romances como ‘‘O Sol Também se Levanta’’, ‘‘Adeus às Armas’’, ‘‘Por Quem os Sinos Dobram’’, ‘‘Ter ou Não Ter’’, ‘‘O Velho e o Mar’’. Mas, é claro, nunca aprendi a escrever como Hemingway: parecia ser muito fácil para ser verdadeiramente fácil, e cedo descobri que fácil mesmo é escrever ‘‘difícil’’ - coisa na qual os intelectuais brasileiros, com seu ranço de bacharelismo, são especialistas. O segredo de polichinelo do escrever ‘‘difícil’’ é lançar mão de um vasto repertório de palavras que poucos entendem e, no fundo, querem dizer quase nada e com elas revestir a pobreza e a inconsistência das idéias.
Hemingway propôs a si mesmo só escrever sobre aquilo que conhecesse bem, e fazê-lo da forma mais verdadeira e direta possível. Por isso mesmo, seus livros parecem (e são) tão fluentes e acessíveis; seus diálogos, tão naturais e verdadeiros; suas descrições, tão vívidas e precisas. A literatura de Hemingway tem ritmo, às vezes parece cinema - e da melhor qualidade. Não se pense, porém , que essa fluência, essa vivacidade, essa agilidade surgem espontaneamente do simples fato de se conhecer bem aquilo sobre o que se escreve. Observe-se, a propósito, este trecho de ‘‘O Sol Também se Levanta’’:
‘‘Era um bosque de faias e as árvores eram muito velhas. Suas raízes saíam do solo e seus ramos entrelaçavam-se. Fomos caminhando por entre os espessos troncos daquelas velhas árvores e os raios de sol atravessavam as folhas, deixando manchas de luz no solo. As árvores eram grandes e a folhagem era densa, mas a floresta não estava escura. Não havia outra vegetação, além da grama macia, muito verde e fresca, e as grandes árvores cinzentas bem espalhadas entre si, como se se tratasse de um parque. ‘Isto é mesmo o campo’, disse Bill.
E, de fato, é fácil concordar com o personagem Bill Gorton, que na companhia do narrador do livro, Jake Barnes, se encontra em meio a uma paisagem do vale do Irati, na Espanha, onde ambos foram pescar. Paisagem que Hemingway, fanático por pescarias (assim como por caçadas, touradas e álcool - não necessariamente nesta ordem), conhecia bem. Como escritor, no entanto, poderia perfeitamente perder-se nessa paisagem, cedendo à tentação de descrever espécies de flores do campo, cigarras, pássaros, etc. A descrição de Hemingway é econômica, de uma pureza e frescor quase clássicos; não tem excessos e, ao mesmo tempo, tem tudo o que precisamos para enxergar a paisagem, para, de uma certa forma, estar lá. Só com muita técnica se consegue tal resultado, e Hemingway, nos intervalos entre uma bebedeira e outra, aprendeu a sua a duras penas, reescrevendo e limando muito. E não conheço outro jeito.
P.S.: Desde o título deste pequeno texto, e lembrar o exemplo de Hemingway muitos anos após eu ter deixado de reler seus livros em favor dos livros de escritores ‘‘difíceis’’, tudo aqui tem o objetivo de servir de conselho a mim mesmo e quem sabe àqueles que, não raro, são mais rebuscados do que verdadeiros, mais artificiosos do que sinceros. Penso também em uma grande amiga que, ao redigir os seus textos ou dar um ‘‘toque pessoal’’ aos de outrem, age mais ou menos como a criança que, a princípio, pretende desenhar uma casa, uma árvore e um sol, e, depois, achando que faltou alguma coisa, vai acrescentando, aqui e ali, outras árvores, passarinhos, ervas e flores, cercas e nuvens, bola, gato e cachorro, outras portas e janelas na casa e o que mais lhe ocorrer, até estragar, pelo, excesso, o próprio desenho. Quem sabe com mais uns dez anos escrevendo aqui na Folha eu consiga evitar esse tipo de coisa. Quanto à minha amiga, bem que está precisando ler Hemingway.

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