Wilmar Klein
O espírito do Cabaré Voltaire (2)
Numa ‘‘Conferência sobre o Dada’’ publicada em janeiro de 1924 na revista ‘‘Merz’’, Tristan Tzara dizia que o primeiro a afastar-se do movimento dadaísta fora ele mesmo e criticava aqueles que agiam como se o Dada fosse bastante importante para dele se desligarem ruidosamente (vale recordar que 1924 foi o ano em que André Breton lançou o seu ‘‘Manifesto do Surrealismo’’, em Paris, e passou a congregar em torno de si um grupo altamente organizado de escritores e artistas - em sua maioria, antigos dadaístas). ‘‘Se continuo a fazer alguma coisa nesse movimento’’, prosseguia Tzara, ‘‘é por ele me diverte, ou antes, porque tenho uma necessidade de atividade que utilizo e satisfaço sempre que posso. Basicamente, os verdadeiros dadaístas sempre estiveram separados do Dada.’
Após lembrar que o Dada não é moderno e compará-lo a ‘‘um retorno a uma religião quase budista de indiferença’’ (comparação que pretendo retomar mais adiante), o poeta romeno observa em sua ‘‘Conferência’’: ‘‘A arte não é a manifestação mais preciosa da vida. A arte não tem o valor celestial e universal que as pessoas gostam de lhe atribuir. A vida é muito mais interessante. O Dada conhece o valor exato que deve ser dado à arte: com métodos sutis, pérfidos, o Dada a introduz na vida cotidiana. E vice-versa. Na arte, o Dada reduz tudo a uma simplicidade inicial, tornando-se cada vez mais relativo. Mistura seus caprichos com o vento caótico da criação e as danças bárbaras das tribos selvagens. Quer reduzir a lógica a um mínimo pessoal, enquanto a literatura, na sua opinião, deve destinar-se àquele que a faz. (...) O absurdo não tem terrores para mim, pois de um ponto de vista mais exaltado tudo na vida me parece absurdo. (...) A Beleza e a Verdade na arte não existem; o que me interessa é a intensidade de uma personalidade transposta direta, claramente para a obra; o homem e sua vitalidade...’’ (apud H.B. Chipp, ‘‘Teorias da Arte Moderna’’, São Paulo, Martins Fontes, 1996).
Mudando pouca coisa, aqui e ali, o que está dito no trecho acima transcrito é válido para quase toda a arte subsequente ao dadaísmo, cujo espírito, independentemente de nomenclaturas, permanece ativo até os dias de hoje. O gosto pela provocação, um certo niilismo/indiferença (provocação e indiferença não excluindo uma à outra: quando se esgotam - é ainda Tzara quem nota - segue-se às reações violentas a ‘‘insistência satânica de um contínuo e progressivo ‘Para quê?’ que conduz, por sua vez à indiferença - mas essa indiferença, acrescento, é também provocação), a arte sem pedestais, confundindo-se com a vida, a própria vida como atitude artística - tudo isso é muito saudável e ... muito dadaísta. O Dada, de fato, não é moderno: insurgir-se contra o que se tornou convencional, maçante, respeitável é de todas as épocas e antídoto contra o conformismo e a estagnação.
P.S.: A título de resumo da coisa, encerro com dois parágrafos da mencionada ‘‘Conferência’’ de Tristan Tzara:
‘‘Dada é um estado de espírito. É por isso que ele se transforma de acordo com as raças e os acontecimentos. O Dada aplica-se a tudo, e, não obstante, nada é, constituindo o ponto onde o sim e o não e todos os contrários se encontram, não solenemente, nos castelos das filosofias humanas, mas muito simplesmente, nas esquinas, como cachorros e gafanhotos.
Como tudo na vida, o Dada é inútil.’’

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