Wilmar Klein
Sem esquecer que Marcel Duchamp (1887-1968), com seus ready-mades e sua bem-humorada ironia, assim como Francis Picabia (1879-1952), com seu espírito anarquista e quadros como Catch as Catch Can e Carburador Infante (pintados por volta de 1912), foram protodadaístas ou, se quiserem, dadaístas avant la lettre, o Dada, histórica e oficialmente, surgiu na primavera de 1916, no Cabaré Voltaire, um pequeno bar de Zurique, e teve como fundadores jovens artistas que se haviam refugiado na Suíça para escapar à convocação para o serviço militar, durante a Primeira Guerra Mundial. Eram eles os alemães Hugo Ball - ator e dramaturgo - e Richard Huelsenbeck - poeta - o alsaciano Hans Arp - artista plástico - e os romenos Tristan Tzara - poeta - e Marcel Janco - artista.
Na época, Ball e sua amiga Emmy Hennings haviam criado no local um pequeno espetáculo de variedades, do qual os demais artistas mencionados participavam. Huelsenbeck, em seu livro (publicado originalmente em Hanover, Alemanha, em 1920) En Avant Dada: Eine Geschichte des Dadaismus (En Avant Dada: História do Dadaísmo, apud H.B. Chipp, Teorias da Arte Moderna, trad. de Waltensir Dutra, São Paulo, Martins Fontes, 1996), conta: As energias e ambições dos que participavam do Cabaré Volaire (...) foram, desde o início, puramente artísticas. Queríamos fazer do Cabaré Voltaire um ponto focal da novíssima arte, embora não deixássemos, de tempos em tempos, de dizer aos gordos e obtusos filisteus de Zurique que os considerávamos como porcos e o Kaiser alemão como o provocador da guerra. Havia sempre uma grande agitação e os estudantes, que na Suíça, como em toda parte, são a ralé mais estúpida e reacionária - se é que em vista da estultificação compulsiva e nacional daquele país qualquer grupo de cidadãos pode reivindicar o direito a esse superlativo - seja como for, os estudantes(em relação aos quais, mais genericamente, Huelsenbeck talvez tenha mudado de opinião em maio de 68) anteciparam uma visão de resistência pública que o Dada encontraria mais tarde em sua marcha triunfal pelo mundo. (Considerando o gosto pela provocação demonstrado pelo autor transcrito - comum entre os dadaístas - e slogans como Abaixo a arte, Abaixo o intelectualismo burguês, A arte morreu, Dada é a destruição voluntária do mundo burguês das idéias, divulgados em Berlim em 1920, não é de admirar que o movimento encontrasse resistência.)
Dada (a palavra, em francês, significa cavalo de pau) foi um movimento de negação. Sua reação, escreve Chipp (op.cit.), tomou a forma de uma insurreição contra tudo que era pomposo, convencional ou mesmo maçante nas artes - e isso, me parece, continua sendo uma atitude das mais saudáveis e desejáveis, sem a qual toda a arte se torna homogênea e esclerosada. Os dadaístas, prossegue o autor de Teorias da Arte Moderna, compuseram e leram poemas absurdos, cantaram e argumentaram no espírito niilista que constituiu sua reação ao holocausto da guerra. Ao contrário dos surrealistas, não tinham líder, nem teoria, nem grupo organizado. Só em 1918, depois de cerca de três anos de atividade, é que se escreveu um manifesto, e mesmo então seu autor, Tristan Tzara, não pretendeu explicar o movimento (não pretender explicar nada é, aliás, um dos traços mais característicos do dadaísmo).
Pois bem... não obstante as enciclopédias e os livros de história da arte nos informem que o movimento, após expandir-se internacionalmente, findou por volta de 1921 e foi sepultado em 1924, com o surgimento do surrealismo, o fato é que o espírito do Cabaré Voltaire ressurgiu, com novas roupagens e novos nomes, ao longo das décadas subsequentes. Comentar, ainda que ligeiramente, alguns desses ressurgimentos é a proposta da continuação deste texto, a ser publicada na próxima quarta-feira.





