Wilmar Klein
Em algum lugar da obra O Homem e Seus Símbolos, Carl Gustav Jung (1875- 1961) fala-nos de um sujeito que se envolveu numa série de negócios escusos e, como uma espécie de compensação, desenvolveu uma paixão meio mórbida pelas formas mais arriscadas de alpinismo, por meio das quais buscava erguer-se sobre si mesmo. Certa noite, esse homem sonhou que, ao escalar uma montanha muito alta, precipitara-se no espaço vazio. Quando me contou o sonho, escreve Jung, verifiquei imediatamente o perigo que corria e tentei reforçar ainda mais aquele aviso para persuadi-lo a moderar-se. Cheguei mesmo a dizer-lhe que o sonho pressagiava sua morte num acidente de alpinismo. Apesar disso, o sujeito continuou suas escaladas e, seis meses depois, conseguiu precipitar-se no vazio, ao soltar, sem razão aparente, a corda com a qual procurava alcançar um lugar de difícil acesso. Largou simplesmente a corda, caindo sobre um companheiro que se encontrava mais abaixo, e ambos despencaram para a morte. Fim da historinha - e, só o tempo de trocar de parágrafo, já emendo outra que lhe serve de contraponto.
Durante toda a minha adolescência e grande parte da vida adulta, tive um sonho recorrente: eu sonhava que estava num lugar alto (às vezes o topo de um prédio, às vezes o topo de uma montanha) e alguém (a pessoa mudava de sonho para sonho e geralmente não era identificável) se aproximava perigosamente de um ponto que oferecia-lhe o iminente risco de queda. Eu corria até essa pessoa para tentar salvá-la, mas nunca chegava a tempo. Ela desequilibrava-se e caía. Eu, então, acordava.
Pois bem... tais sonhos deixaram de acontecer no dia em que, já abeirando os 40 de idade e bem desperto, consegui evitar que uma pessoa (na ocasião, bêbada, ou drogada, ou ambas as coisas) despencasse da janela do 10º andar de um prédio. As cortinas estavam fechadas, porém a janela estava escancarada e era estupidamente baixa. A tal pessoa, trôpega, apoiou-se nas cortinas, que, é claro, abriram-se; mas, com meu feitio, consegui agarrá-la pela cintura. Sobre isso, é quanto basta saber - e, evidentemente, não deixar janelas abertas com as cortinas fechadas, a menos que elas fiquem no térreo.
Nunca acreditei que o sonho recorrente que mencionei tivesse alguma coisa de premonitório. Sua origem, segundo penso, deve ser buscada na minha infância, quando meu pai, que era mestre de obras, colocou-me sozinho no tosco elevador de um edifício em construção e acionou aquela geringonça. À medida que o elevador - aberto, com chão de tábuas - ia subindo e eu considerava a possibilidade de atirar-me lá de cima sobre um monte de areia, sei que estava garantindo para o resto da vida o meu pavor de altura. Como, ainda que em sonho, ver a mim mesmo despencando de um prédio ou de uma montanha não seria coisa muito agradável (nem muito saudável), outra pessoa sofria a queda no meu lugar - o que nem por isso retirava da coisa o caráter de pesadelo. Quanto ao alpinista de Jung, o sujeito estava mesmo - seja como forma de autopunição, seja por qualquer outro motivo - predisposto a largar a corda.
E estaríamos conversados se todos os sonhos pudessem ser explicados tão facilmente. Mas nem sempre isso é possível. Dou-lhes a seguir um exemplo de sonho que até hoje me intriga.
Sonhei certa vez que estava perdido numa cidade de um país qualquer do Leste europeu e deparei-me com um comprido prédio cinza de dois pavimentos - um prédio antigo, austero, soturno -, e, no outro lado da rua havia uma igrejinha, singela e neobarroca. Uma semana depois, estava em São Paulo, dentro de um táxi, passando por uma rua que - tenho certeza - eu nunca vira antes. E então olho para um lado e encontro o tal prédio cinza, exatamente igual ao do sonho. Pensei: só falta agora olhar para o outro lado e encontrar a igrejinha. E - acreditem - ela estava lá.
Nas ocasiões em que contei isso, ouvi toda a sorte de explicações e a censura por não ter descido para conferir o que aquele lugar tinha a ver comigo. Ora, já não é fácil o sujeito ter epifanias em Sampa, e ainda me pedem que eu desça de um táxi bem na hora do rush. Fui em frente, e sei lá que raio de rua, prédio e igreja eram aqueles. Continuei, transeunte - na vida e no sonho -, sem nenhuma grande teoria ou revelação, igual a todo mundo que passa - no fim das contas, sem por que nem para onde.





