Poucas coisas conheço mais demolidoras do que um filósofo com senso de humor ou um humorista com veia filosófica; e ambos - é forçoso reconhecer - são espécimes bem raros. Da primeira categoria o romeno Emil Cioran - não obstante o seu crônico pessimismo (ou por isso mesmo) - talvez tenha sido o último representante neste século - ou acaso negar-se-á que possuía senso de humor quem dizia que Jesus Cristo, há dois mil anos, desconta em nós o fato de não ter morrido num sofá? À segunda, pertenceram o irlandês George Bernard Shaw e - bem menos conhecido aqui no Brasil - o norte-americano James Thurber.
Nascido em 1894, Thurber colaborou em vários jornais, escreveu diversos livros e incursionou pela Broadway e por Hollywood. Em 1927, fixou-se na revista ‘‘The New Yorker’’, onde permaneceu até sua morte, em 1961. Eis um exemplo do que ele tinha a dizer sobre a espécie humana:
‘‘Por alguma razão singular, o Homem sempre julgou ser a forma mais alta de vida no universo. Naturalmente, nada há para sustentar esta opinião. O Homem é simplesmente a forma mais alta de vida sobre o seu próprio planeta. Sua superioridade repousa sobre uma base tênue e acidental: ele tem a habilidade de articular um discurso e fora disso, lenta e laboriosamente, desenvolveu a capacidade do raciocínio abstrato. Tal raciocínio, em si mesmo, não tem beneficiado tanto o Homem quanto o instinto igualmente beneficia os animais da escala inferior... Ao abandonar o instinto e marchar para o raciocínio, o Homem aspirara a algo mais acima do alcance de objetivos naturais; tem desenvolvido idéias e noções; tem feito macaquices com conceitos. A vida para a qual fora naturalmente adaptado, ele a deixou para trás; ao movimentar-se dentro da esfera estranha e complicada do Pensamento e Imaginação, ele tornou-se a criatura menos bem ajustada de todas na Terra, e por isso a mais desorientada... O Homem (...) está seguramente mais distante da Resposta do que qualquer outro animal do partido da joaninha.’’ (Apud Walter Blair, ‘‘A Urbanização do Humorismo’’, in ‘‘A Renascença Literária Americana: 1910-1960’’, organização de Robert E. Spiller, tradução de Francisco Rocha Filho, Rio de Janeiro, Editora Letras e Artes, 1963.)
Mais incisivo, George Bernand Shaw (1856-1950) escreveu no longo prefácio à sua peça ‘‘Volta a Matusalém’’: ‘‘... Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos. Não quer isso dizer que, se o Homem não pode encontrar o remédio, o remédio não será encontrado. O poder que produziu o Homem, quando o macaco não deu certo, pode produzir uma criatura mais elevada do que o Homem, se o Homem não der certo. Quer isso dizer que, para o Homem ser salvo, deve salvar-se a si mesmo. Parece não haver motivo de força maior para que ele se salve. Ele não é, de modo algum, uma criatura ideal. Na sua forma atual mais acabada, muitos dos seus modos de viver são tão desagradáveis que não podem ser mencionados na sociedade polida, e tão penosos que ele se vê obrigado a fingir que a dor é por vezes um bem. A Natureza não advoga a experiência humana: ela deve sustentar-se ou cair por seus resultados. Se o Homem não servir, a Natureza tentará outra experiência.’’( Tradução de João Távora, São Paulo, Edições Melhoramentos, 1953.)
Parece-me oportuno, neste fim de milênio, refletir sobre as palavras de Thurber e Shaw, humoristas que, melhor do que muitos filósofos, eram capazes de dizer coisas bastante sérias e, em meu entender, necessárias. Somente a nossa vaidade e a nossa presunção impedem-nos de considerar seriamente a hipótese de sermos a espécie mais inútil e - o que é pior - mais inconveniente da Via Láctea, bem como a possibilidade de, à força de nossa estupidez (aliada, é claro, à alta tecnologia de que nos vangloriamos), conseguirmos não apenas esculhambar de vez este planeta, como tornar inviável a própria vida humana. E aí - não tenho dúvidas - as baratas herdarão a Terra.

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