Wilmar Klein
O acaso - como tantas vezes tem feito - coloca em minhas mãos um livro cuja existência eu desconhecia. No caso, o sobredito Exorcismos de esti(l)o, do cubano Guillermo Cabrera Infante. A edição que ora folheio - e suponho seja a primeira - é de 1976 e integra a coleção Biblioteca Breve, da Editorial Seix Barral, de Barcelona. Um livrinho simpático, para dizer o mínimo. E inventivo, sobre ser bem-humorado. Cabrera Infante dedica-o às vírgulas, alegres, diversas, múltiplas, minuciosas, salvadores porém modestas. Pelo que consegui apurar, nunca foi traduzido no Brasil. Posso, é claro, estar enganado. Mesmo assim, a título de exercício, arrisquei fazer umas poucas transcriações de trechos da obra, escolhidos algo aleatoriamente - e observo que o termo transcriação (cunhado pelos irmãos Campos) aqui se aplica perfeitamente, uma vez que a literalidade empobreceria (e, em alguns casos, destruiria) o efeito dos divertissements propostos pelo autor. Como, por exemplo, esta Canción Cubana:
Ai, José, assim não sei se pode!
Ai, José, assim não sei!
Ai, José, assim não!
Ai, José, assim!
Ai, José!
Ai!
Posso até concordar que a construção acima é ingênua, porém o seu espírito lúdico não deve ser menosprezado, pois é o mesmo que se encontra na origem das criações dos grandes inventores literários: de Rabelais a Laurence Sterne, de Lewis Carroll a James Joyce. (Confira-se alguns títulos dos exorcismos estilísticos de Cabrera Infante: Laertes escuta em silêncio os conselhos de seu pai sentencioso - ou se Brillat-Savarin, e não Shakespeare, tivesse escrito Hamlet, Os Idos de Março segundo Plutarco...e segundo Mankiewicz, e segundo o engraxate Chicho Charol, Dores zeugmáticas, Parênteses como fossas ansiosas, Moscacadêmica, Vocalburlário, Da cabeça de Orfeu à queixada de um burro, Marx and Angels, Marx and Angles - em inglês, no original, estes dois últimos títulos brincam, evidentemente, com o nome do co-autor do Manifesto Comunista: Friedrich Engels.)
Para encerrar, vai aqui uma tradução (transcriação) de La Voz Detrás de la Voz(p.143 dos Exorcismos...):
Quem escreve?
Quem fala em um poema? Quem narra em um romance? Quem é esse eu das autobiografias? Quem conta um conto? Quem conversa nessa imaginária peça de apenas três paredes? Que voz, ativa ou passiva, fala, narra, conta, mente, instrui - se deixa ver escrita? Quem é esse ventríloco oculto que fala neste mesmo momento por minha boca - ou melhor, por meus dedos?
A caneta, supostamente, à primeira vista ou de primeira mão, à noite. Ou a máquina de escrever agora pela manhã. Uma segunda mirada sonora, escutar outra vez esse silêncio, nos revelará - a mim, neste instante; a ti, leitor, em seguida - que esta voz inaudita, esse escrivão invisível, é a linguagem.
Mas a última dúvida é também a primeira: de que voz original é a linguagem o eco?





