Wilmar Klein
Wilmar Klein
O triunfo da vontade
Embora eu não acredite, como Novalis, que basta querer para poder, admito - meio a contragosto - que a vontade é uma grande coisa talvez só inferior à vocação para a inércia verificada no âmbito da matéria, assim como no do espírito. E uma vez que parece razoável a afirmação de Epicteto - não existem ladrões da vontade - é bem possível que ela seja, como queria Fénelon, o único bem que podemos possuir: Nada temos nosso senão a nossa vontade, tudo o mais não é nosso. A doença leva a saúde, e a vida; as riquezas nos são arrancadas pela violência; os talentos do espírito dependem da disposição do corpo. A única coisa que é verdadeiramente nossa é a nossa vontade. Muito edificante, isso, mas o que o arcebispo de Cambrai não considerou é que a vontade, não obstante as suas virtudes terapêuticas, nada pode contra a morte e contra os revezes da fortuna. Não é muito que seja nosso o que, naquilo que importa, não nos vale. E diga-se de passagens: em Fénelon, a boa vontade nunca o impediu de escrever bobagem.
Então, em que eu admito que a vontade é uma grande coisa? No sentido expresso no provérbio alemão que afirma ser ela a alma da obra. Colocada a esse serviço, e se for realmente intensa, assemelha-se à febre e à loucura (e às vezes é febre e loucura). É - para citar o esquecido escritor belga Fernand Divoire e encerrar o meu festival de citações - motor que faz pouco caso do carro que o transporta.
Esta vontade que despreza o corpo em favor da obra é, a um tempo, patética e sublime. Pode transformar um homem numa besta da melhor espécie, ou num santo. O fato é que este nosso anêmico final de século carece dessa fúria sublimada em obras. O que se tem à mão (e à venda) é pobre arremedo disso.
De um lado, a sobredita fúria; de outro, a boa vontade (mas não aquela do tal arcebispo) - de ambas estamos necessitados, e sábio seria quem soubesse quando e onde utilizar uma e outra com eficiência. Dito de outro modo: chutar o pau da barraca, mandar às favas, quando for o caso; ser tolerante e solidário quando pessoas e ocasiões o merecerem. Lamentável estertor, medíocre findar de século, quando já não se sabe quais edifícios devem ser destruídos e quais devem ser erigidos. Se é isso que chamam de pós-modernidade, eu dispenso. (E, afinal, que pós é esse, se nem chegamos a ser modernos? E que civilização é essa, que apenas mudou a decoração da caverna, e dotou-a de antenas e de conforto letárgico? Por que ninguém mais se expõe à tempestade e desapareceram os visionários? Que vontade fraca é essa que não triunfa, mudando a cara do mundo? - Ou mudasse o indivíduo, já estaria de bom tamanho.)
P.S.: Bem sei que me perdi e trunquei o meu discurso. Porém, ainda prefiro a raiva de um desordenado desabafo do que a ordem do conformismo, estéril arranjo sem alma.
P.P.S.: Como não tenho nada contra mudar de idéia, vão aqui mais duas citações, com o objetivo confesso de completar o espaço regulamentar:
1) Acho que foi Gilberto Gil quem disse: O povo sabe o que quer, mas às vezes quer o que não sabe. (E, de resto, vivemos num país onde se confunde a vontade política com a vontade dos políticos.)
2) Nietzsche: O homem prefere ainda querer nada do que nada querer. Mas, demonstra-o a experiência (e contra Novalis), apenas querer não basta. É isso.





