Wilmar Klein
Wilmar Klein
A formiga elétrica
Releio, de Philip K (Kindred) Dick (1928-1982), uma coletânea de contos que no Brasil (onde foi editada pela Paulicéia, em 1991) ganhou o título oportunista de O Vingador do Futuro - o mesmo do filme dirigido por Paul Verhoeven (1) e roteirizado por Dan OBannon (2). Pois bem... não foram poucos os críticos - como, por ocasião do lançamento da tradução do livro, o jornalista Jesus de Paula Assis, no extinto caderno Letras, da Folha do S. Paulo - que sugeriram (ou afirmaram, peremptoriamente) que Dick era um escritor ordinário dotado de uma privilegiada imaginação (que ele, para piorar as coisas, não saberia usar adequadamente). E, é claro, PKD não escreveu ficção científica tão brilhantemente como, por exemplo, Walter Miller Jr. (o autor do clássico Um Cântico para Leibowitz) ou Ray Bradbury - cujas qualidades literárias (a exemplo das de Miller) transcenderam as limitações do (sub?) gênero. Dick, se não foi um estilista e por vezes realmente desperdiçava sua imaginação, também não foi um Kilgore Trout (3). Seu mérito maior, a meu ver, foi ter contaminado toda a sua obra com um clima de futurismo noir (4), distópico, pessimista. Transmitir este clima depressivo de uma maneira eficiente não é coisa em que um escritor apenas imaginativo seja bem-sucedido. Não quero, evidentemente - e só porque a posteridade deu-lhe a fama de autor cult - conferir-lhe mais valor do que ele merece. Ao contrário, é melhor mesmo que leiam PKD pelas suas idéias. E, dentre estas, as melhores dizem respeito à apreensão da realidade - ou, explicando melhor: é muito frequente, nas novelas e contos deste escritor, que alguém descubra ser coisa bem diferente do que pensava ser, e igualmente comum é que também descubra que o mundo que o cerca não é o que julgava perceber. É o que acontece em A Formiga Elétrica, a melhor história de O Vingador do Futuro: um sujeito vai parar num hospital, onde descobre que não é um ser humano, mas um andróide, e sua apreensão da realidade nada mais é do que um programa, um simulacro de realidade. O andróide, então, passa a fazer experiências consigo mesmo para tentar descobrir, tanto quanto lhe é possível, considerando a sua natureza artificial, a realidade que é externa a ele. Pensando bem, igualzinho ao ditos seres humanos...
(1) Este filme (Total Recall, no original) foi baseado numa das histórias da coletânea, Recordamos para Você por Atacado. Verhoevan, convém lembrar, assinou, entre outros longas, Robocop, Instinto Selvagem e, mais recentemente, Tropas Estelares. Quanto ao título nacional O Vingador do Futuro, não foi por acaso: a intenção era fazer uma associação de idéias com O Exterminador do Futuro (The Terminator), sucesso pré-Titanic de James Cameron, estrelado pelo mesmo Arnold Schwarzenegger.
(2) OBannon, além de roteirista dos mais competentes, revelou-se um diretor bem interessante em A Volta dos Mortos-Vivos, versão bem-humorada de The Night of Living Dead, de George A. Romero.
(3) Personagem que Kurt Vonngut Jr., em livros como O Almoço dos Campeões, utilizou para exercitar sua capacidade de auto-ironia. Trout era um escritor de ficção científica de imaginação tão fértil quanto maluca, pessimamente editado em publicações baratas, às vezes pornográficas.
(4) Clima bem captado por Ridley Scott em Blade Runner (1982), que é uma adaptação de outro conto de PKD, Os Andróides Sonham com Carneiros Elétricos.





