Em 1966, por ocasião de uma visita de Umberto Eco ao nosso País, o poeta Augusto de Campos entrevistou-o para o jornal O Estado de São Paulo. Nesta entrevista, republicada alguns anos depois como apêndice à tradução brasileira da ‘‘Obra Aberta’’, de Eco, Augusto perguntava ao ensaísta italiano (que então nem sonhava tornar-se um romancista de sucesso) qual era a função da literatura de vanguarda em nosso tempo. Eis a resposta, tão lúcida quanto didática: ‘‘As mensagens de massa são mensagens inspiradas numa ampla redundância: repetem para o público aquilo que ele já sabe e aquilo que deseja saber. Mesmo quanto utiliza soluções estilísticas difundidas pela vanguarda, a cultura de massa o faz quando estes modos comunicativos já foram assimilados pelo grande público. Daí que ela difunde, por assim dizer, sobre o universo uma confortável cortina de obviedade. Diante do já conhecido (noto) a vanguarda propõe o desconhecido (l’ignoto). Neste sentido se enquadra no discurso informativo e aberto. Já se disse que a tarefa da literatura é a de manter eficiente a linguagem. Se por ‘manter eficiente a linguagem’ se entende ‘renovar continuamente as modalidades de uso do código linguístico comum’, esse é exatamente o objetivo da vanguarda. Com uma particularidade: desde que um modo de falar reflete um modo de ver a realidade e de afrontar o mundo, renovar a linguagem significa renovar a nossa relação com o mundo.’’
Embora a declaração acima permaneça, a meu ver, perfeitamente válida, reproduzi-la 32 anos depois suscita novas perguntas, e formulo-as estendendo o conceito de vanguarda às demais artes, para, afinal, tentar saber se, passando todo esse tempo, as vanguardas conseguiram mudar significativamente a nossa relação com o mundo. As questões que coloco são as seguintes:
1) O desenvolvimento de novas tecnologias e de novos suportes (desenvolvimento cujas proporções dificilmente Eco poderia ter imaginado em 1966) contribuiu - como geralmente se acredita - para uma efetiva renovação das linguagens artísticas?
2) Ou, ao contrário, o que vimos acontecer foi apenas a assimilação dos aspectos mais superficiais de algumas vanguardas, acomodados, em favor do conforto proporcionado pela obviedade, às linguagens consagradas pela tradição?
Como reforço à segunda hipótese, recordo a fórmula de um personagem - Tancredi, sobrinho do altivo príncipe Don Fabrizio Salina - no belo ( e acadêmico) filme ‘‘O Leopardo’’ (Il Gattopardo’’, 1963), de Luchino Visconti (1906 - 1976): ‘‘É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique como está.’’ Desconfie-se, pois, de toda essa ‘‘modernidade’’ facilmente incorporada à cultura de massa; não se espere encontrar nisso os ecos de uma revolução estética e de uma nova maneira de ver o mundo. Tudo isso são apenas mercadorias com design ligeiramente modificado e as pessoas que as consomem não estão, de modo algum, interessadas em abrir mão da tranquilizadora redundância que lhes afirma um mundo conhecido.
Talvez não seja a comparação mais apropriada, mas imagino que as verdadeiras vanguardas façam no âmbito da cultura papel semelhante ao da física quântica no âmbito da ciência. Posto isso, alguém me diga se, ao construir uma ponte, por exemplo, se recorre a esta física, de preferência à física tradicional, newtoniana. A física tradicional, macroscópica, mostra-se tão mais óbvia, mais sólida, mais conforme à imagem do mundo ao qual as pessoas estão acostumadas que, para elas, coisas como a física quântica e outras modalidades de vanguarda científica permanecem como uma espécie de excentricidade praticada por uns poucos iniciados. Mutatis mutandis, o mesmo acontece em relação às vanguardas artísticas. As surpresas, os horizontes ignotos, as ‘‘estranhezas não sabidas’’ continuarão sendo prazeres e descobertas de uma minoria inquieta e visionária, enquanto, para a maioria, o mundo, ainda que mude a sua ‘‘maquiagem’’, permanecerá o mesmo, tão confortável e óbvio quanto for possível.

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