Wilmar Klein
Sempre relacionada a ele, porém um tanto à sombra de Jan van Eyck (1390-1441) - um dos maiores pintores flamengos de todos os tempos - surge-nos a imprecisa figura de seu irmão, mentor e mestre Huybrecht (ou Hubert) van Eyck (1370-1426), cuja existência - a exemplo da de seus dois outros irmãos, Margarida (que teria sido pintora de iluminuras) e Lambert (artista menor) - chegou mesmo a ser questionada por alguns estudiosos. É fato que, embora a tradição atribua a Hubert e Jan a execução conjunta de obras geralmente creditadas a este último, a posteridade não conheceu nenhum quadro assinado pelo mais velho dos irmãos van Eyck, naturais da pequena cidade de Maas Eyck, no Limburgo (região dos Países Baixos situada ao sudeste da Holanda, na fronteira com a Bélgica e a Alemanha). Não obstante serem poucos os dados disponíveis, parecem suficientes não apenas para desautorizar a tentativa de fazer de Hubert van Eyck um pintor fictício, como para sugerir que ele teria sido - pelo menos aos olhos de sua época - um artista superior ao próprio Jan.
Sabe-se, por exemplo, que um dos mais conceituados (e ricos) cidadãos de Gand (atual Bélgica), Josse Vydt, em 1420 contratou os dois irmãos para executar um políptico destinado a adornar a capela (e também sepultura de sua família) que possuía na catedral de São Bavão. Vydt pretendia que esse políptico superasse tudo o que até então fora feito no gênero. A Adoração do Cordeiro Místico - o monumental trabalho em questão, composto por vinte painéis com um total de trezentas e trinta figuras (cada uma delas, uma obra-prima) - cumpriu plenamente o objetivo, porém Hubert (que para a execução da obra havia, juntamente com o irmão, se mudado de Bruges, onde estavam instalados, para uma casa próxima à Praça Kantre, na esquina da Rua das Vacas com o mercado de pássaros, em Gand) não pôde terminar o retábulo (concluído somente em 1432 por Jan), pois a morte o colheu em 1426.
É curioso o fato de que a sensibilidade moderna pode não raro colocar em segundo plano a eventual importância de um conjunto de obras (e as dos irmãos van Eyck ajudaram a forjar o estilo de pintura conhecido como Velho Gótico ou, simplesmente, flamengo) em favor de uns poucos detalhes mórbidos. Não pretendo explicar por que isso acontece, mas devo confessar que experimento um certo prazer em reproduzir aqui a inscrição de uma placa de metal colocada junto a um esqueleto esculpido horizontalmente na cripta da família Vydt, onde Hubert foi enterrado: Vêde em mim vossa imagem, vós que passais sobre minha cabeça. Fui em outro tempo como vós, e agora estou morto e estendido na terra. Nem a prudência, nem a arte, nem a medicina, me serviram. Honra, habilidade, sabedoria, poder, opulência, grandeza, nada respeita a morte. Chamava-me Hubert van Eyck, era célebre a admirado como um grande pintor, e agora me devoram os vermes. Era algo há poucos dias e agora nada sou. No ano do senhor de Mil Quatrocentos e Vinte e Seis, no Décimo Oitavo Dia do Mês de Setembro, entreguei minha alma a Deus. Rogai por mim os que amais a arte, a fim de que possa lograr Sua graça; fugi do Pecado e fazei o Bem, para que um dia possais seguir-me. - Esse pessoal do século XV realmente sabia fazer uma mensagem fúnebre.
Detalhe macabro: conta-se que os admiradores de Hubert, antes de seu corpo ser enterrado, deceparam-lhe o braço direito, colocando-o num armário de ferro e expondo-o à visitação pública na entrada da igreja rodeada pelo cemitério. - Esse pessoal do século XV sabia mesmo como prestar uma homenagem de impacto.





