Em mais de uma ocasião, manifestei aqui a minha admiração pelo pensamento de Michel de Montaigne (1533-1592), seja indiretamente, ao recorrer à citação de trechos dos seus ‘‘Ensaios’’, seja explicitamente, no texto ‘‘O filósofo de cabeceira’’ (publicado em 5 de agosto do ano passado). Agora, escolho concentrar-me num de seus temas, de radicais consequências filosóficas: o de que tudo o que existe possui o caráter de exceção. Esse tema, vale dizer, não aparece formalmente na obra de Montaigne, porém percorre, como um caudal subterrâneo, o conjunto dos ‘‘Ensaios’’, obedecendo ao seguinte raciocínio, deduzido de maneira perspicaz por Clément Rosset (outro de meus ‘‘filósofos de cabeceira’’ que costumo citar com frequência ): ‘‘1. Uma lei, se lei existe, não deve conhecer nenhuma exceção, senão ela seria uma lei imaginária; 2. Ora, todas as leis recenseadas até agora apresentam exceções: sem nenhuma exceção; 3. Segue-se daí que nenhuma lei existe; 4. Logo, tudo o que existe, não estando submetido a nenhuma lei senão de ordem imaginária, tem um caráter excepcional: o reino do que existe é reino de exceção. Tudo é, com efeito, segundo Montaigne, excepcional ou ‘monstruoso’ (monstrum definindo o que não pode ter lugar no conceito de ‘natureza’)’’ ( C.Rosset, ‘‘Lógica do Pior’’, trad. de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes, Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989). Escreve o autor dos ‘‘Ensaios’’: ‘‘... para os mais avisados e para os mais hábeis tudo será monstruoso’’.
Como disse no início, o tema da exceção, em Montaigne, tem radicais consequências filosóficas. Rosset, leitor atento, aponta uma delas: o caráter ‘‘monstruoso’’ da exceção - e levando em conta que tudo seja exceção - implode o conceito de ‘‘natureza’’. Mais do que isso: implode a idéia do ‘‘ser’’, estabelecida com base na idéia de ‘‘natureza’’ (é a partir de uma ‘‘natureza’’ que chegamos ao ‘‘sobrenatural’’, território da metafísica, da ontologia, das religiões). Em resumo: não há, se tudo é exceção, nem ser, nem natureza (existirão animais, vegetais e minerais - todos eles excepcionais - mas não uma anima mundi a que se possa dar o nome de natureza). E nenhuma lei, nada que responda por um comportamento necessário do que existe. (Como se percebe, lido atentamente, Montaigne não é o filósofo ameno e algo superficial que aparenta ser.)
Mesmo que, na tentativa de invalidar o pensamento de Montaigne, se encontre e se contraponha uma lei que não comporta exceções, essa lei, em meio àquelas que comportam exceção - e são a maioria - seria, ela mesma, uma exceção. Cabe também ressalvar que a afirmação de que tudo é exceção não constitui uma lei, e sim uma constatação. Constatação que, ao contrário das leis, não determina (inventa) um comportamento nesessário do que existe. Não havendo leis, não há, por consequência, necessidade. (Mesmo que a existência desta ficasse demonstrada - validando, aparentemente, a existência de leis não-imaginárias -tudo, conforme observa Clément Rosset em outro lugar da sua ‘‘Lógica do Pior’’, seria demonstrado a partir da necessidade, mas, mesmo assim, nada demonstraria a necessidade em si mesma. Dito de outro modo: nada demostra ser a necessidade, ela mesma, ‘‘necessária’’.) Montaigne devolve-nos ao reino do acaso, do qual, aliás, nunca nos afastamos realmente, por mais que os conceitos nos convençam do contrário (um convencimento psicologicamente útil, é bem verdade, pois o estabelecimento de referenciais, mesmo que imaginários, nos proporciona parâmetros num mundo que, em última instância, não os tem). Entretanto, vale uma consideracão final e paradoxal: mesmo a noção de acaso, à qual se pode chegar por meio da admissão de que tudo possui um caráter excepcional, revela-se inadequada para dar conta do que existe. Se tudo é exceção, isso equivale a dizer que nada é exceção (exceção só é exceção em relação a algo que não o é); e, do mesmo modo, se tudo é acaso, nada é acaso. Nem acaso, nem necessidade. Apesar é, eu diria, se não suspeitasse que a coisa toda é mais ou menos como uma cebola, da qual se retira, uma a uma, as camadas, e no interior da última delas nada existe.

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