Douglas MayerUm dos grandes projetos da filosofia ocidental, desde os seus primórdios, consistiu em negar a contingência ou, pelo menos, submetê-la a uma ordem subjacente; e assim não é de estranhar que já um pré-socrático, Leucipo, declarasse: ‘‘Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas (a partir) da razão e por necessidade’’. Conforme Clément Rosset observa em sua ‘‘Lógica do Pior’’ (Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989): ‘‘Arrumar a desordem aparente, fazer aparecer relações constantes e dotadas de intelegibilidade, tornar-se senhor dos campos de atividade abertos pela descoberta dessas relações, assegurando assim à humanidade e a si mesmo a outorga de uma melhora em relação ao mal-estar vinculado à errância do inintelegível - é este um programa comum a toda filosofia reputada séria’’.
Se um filósofo influente como Aristóteles pôde admitir no princípio da causalidade um espaço para o puramente acidental, não significa que desprezasse menos a contingência - o que, aliás, fica demonstrado em sua afirmação de que não existe ciência do acidente. Ainda menos maleáveis a esse respeito, coube aos estóicos afirmar um rigoroso determinismo da natureza - idéia que teria ecos em Galileu, Kepler, Newton, Leibniz, entre outros. Leibniz declararia: ‘‘Para conhecer na sua totalidade a beleza universal e a perfeição das obras de Deus, devemos reconhecer um progresso perpétuo e fluente de todo o universo, movendo-se sempre para estados superiores de ordem e aperfeiçoamento’’. Depois viria Descartes, acreditando ser possível submeter a realidade do mundo a seu sistema de coordenadas.
É bem verdade que, esporadicamente, surgiram pensadores dispostos a contestar o rigor do determinismo, e foi o que fez Lucrécio, o autor do ‘‘De Rerum Natura’’ (onde sugere que, em última instância, a natureza das coisas é não ter natureza nenhuma), e também Montaigne, La Mettrie, Spinoza, Hume, Boutroux, Nietzsche. A eles acrescentar-se-iam, em nosso século, cientistas como Niels Bohr e Werner Heisenberg e filósofos como Deleuze e o sobrecitado Rosset. Mas, mesmo assim, o número daqueles que afirmaram o caráter contingente do que existe - ou, quando menos, uma tensão dinâmica entre a ordem e a contingência - é infinitamente inferior ao daqueles que defenderam as noções de ‘‘ordem subjacente’’ e ‘‘comportamento necessário’’. A admissão ampla do acaso parecia uma idéia repugnante mesmo ao criador da teoria da relatividade, que proclamou: ‘‘Nunca acreditarei que Deus joga dados com o mundo’’. A frase tornou-se famosa, mas merece ser acompanhada (o que raramente acontece) pelo que, ao ouví-la do próprio autor, Niels Bohr perguntou a Einstein: ‘‘Como é que você sabe o que Ele está fazendo?’’ Porque sempre foi um homem de convicções religiosas, Einstein não podia pensar de outro modo; já o mesmo problema não parece ter incomodado o físico Joseph Ford, um dos pioneiros da moderna teoria do caos, quando, ao concluir pela existência de um certo padrão no comportamento universal da complexidade, afirmou que Deus joga dados, sim - e com dados viciados.
Seja como for, toda a discussão em torno da necessidade e da contingência perde o seu relevo quando, ao nos perguntarmos sobre a razão final das coisas, começamos a desconfiar que a necessidade não é, ela mesma, necessária (aliás, esse era o ponto de vista de Spinoza) e, por outro lado, ‘‘o acaso não é mostrável porque a necessidade nunca é mostrada’’ (Rosset, op. cit). ‘‘Qual a razão final e teológica, por exemplo, de ser verde a grama e amarelos os girassóis?’, indaga Aldous Huxley num ensaio sobre Pascal (em ‘‘Satânicos e Visionários’’, Rio de Janeiro, Ed. Americana, 1975). ‘‘Tem-se apenas que levantar a questão para logo perceber que é de todo irrespondível. Podemos falar sobre ondas luminosas, elétrons vibratórios, moléculas de clorofila e coisas que tais. Mas qualquer explicação que possamos oferecer em termos dessas entidades não passará de uma explicação de como a grama é verde, e não por que ela é verde. Não existe ‘por que’ algum - absolutamente nenhum, cuja descoberta possamos conceber. A grama é verde porque é assim que a vemos; em outras palavras, é verde porque é verde.’ - Particularmente, não creio que tenhamos melhor sorte na investigação de coisas consideradas mais relevantes do que gramíneas e heliantos.

mockup