Quando a madrugada avançava sem perspectiva de sono, ou festejos boêmios acabavam mais cedo que o desejado, havia uma solução prazerosa. Reprisava, no VCR, uma apresentação de Joe Williams, acompanhado de um trio com baixo, piano, bateria, em que o cantor destrinchava clássicos como ‘‘Come Back Baby’’, de Ray Charles.
A resposta era imediata: a noite ganhava complemento, a insônia apagava a chama tardia e persistente. Como a cena se repetia com frequência, os detalhes foram aflorando. Williams - que morreu na última segunda-feira - era daqueles cantores que posicionavam o microfone a mais de um palmo da boca, próximo ao peito. Como se fosse um acessório, estava ali por acaso. A distância controlava sua potência vocal e variava de acordo com agudos e graves.
Entre o repertório de primeira linha - a fita já gasta apresentou interferências horizontais quando tentei revê-la anteontem -, Joe Williams imprimia um estilo próprio. Ao contrário dos malabarismos vocais ou do excesso técnico - comuns na atualidade -, Williams era espontâneo. Anos de palco podaram exibicionismos e moldaram-lhe a eficiência.
Com um grave impressionante, às vezes se aproximava da empostação operística, outras assumia tom coloquial. No desenrolar das músicas, surgiam onomatopéias, scats e até imitações de trompete. Joe Williams não era um showman, acoplava estas características à interpretação como recursos vocais.
Williams era um vendedor de perfumes que havia desistido da carreira de cantor quando conheceu Count Basie. Nos idos dos anos 50, o Be Bop e suas ramificações davam a tônica do jazz, tornando líderes de big bands ultrapassados. Embora Basie ainda tivesse grande influência, passou anos sem emplacar um hit.
Count Basie estreou Williams - no lugar de Jimmy Rushing - em 1955 com ‘‘Every Day (I Have the Blues)’’, o primeiro sucesso do band-leader desde a Era do Swing, extinta nos anos 40. A consagração ocorreu em 1963, em um concerto no Newport Jazz Festival, acompanhado por Coleman Hawkins, Zoot Sims, Clark Terry e Mickey Roker. Williams gravou também com Milt Hinton, Ella Fitzgerald, Osie Johnson, Bob Cranshaw, Ben Webster e muitos outros.
Uma de suas melhores fases foram os álbuns da RCA, que incluíam composições como ‘‘In The Evening’’, ‘‘Early in the Morning’’, ‘‘On the Sunny Side of Street’’ e ‘‘April in Paris’’. Joe Williams era um excelente intérprete de Duke Ellington, com destaque para ‘‘Just A-Sittin’ and A-Rockin‘’, ‘‘Jump for Joy’’, ‘‘Rocks in my Bed’’ e ‘‘Prelude to a Kiss’’.
Às vésperas dos cem anos de nascimento de Ellington, não seria má idéia lembrá-lo na voz de Williams. Aos 80 anos, o cantor estava na ativa e, dizem, ainda deixava muita gente no chinelo. Mas a fatalidade veio antes, a homenagem a Ellington se esvaziará por falta de talentos à altura, assim como a velha fita de vídeo agora reproduz imagens rotas, favorecendo noites em claro, mastigando um período em que canções e instrumentais de qualidade não eram antagônicos ao mercado. Nem aos ouvidos.

mockup