Francelino França
De Londrina
Cada vez mais, escritores e pesquisadores se propõem a vasculhar vida e obra do dramaturgo inglês. Não bastasse, as editoras aproveitam o sucesso do filme ‘‘Shakespeare Apaixonado’’ para colocar novos títulos - alguns bons - no mercado
Depois do sucesso do filme ‘‘Shakespeare Apaixonado’’, de John Madden, muitos iniciados na obra do escritor inglês podem mergulhar no legado dramatúrgico de William Shakespeare (1564-1616), com o surgimento de novos livros que analisam sua vida e obra. Tradutores respeitados dão o sotaque português atual às principais peças do poeta e cidadão.
O filme estrelado por Gwyneth Paltrow desvendou para o mundo uma Inglaterra elisabetana ‘‘clean’’, agradável, enfim, um lugar possível de se apaixonar. Aceitável para os padrões de Hollywood, é claro. O resultado satisfatório nas bilheterias do cinema desencadeou um vertiginoso interesse pela obra do autor inglês.
Shakespeare já é traduzido para mais de uma centena de idiomas, incluindo alguns desconhecidos, como marati, punjabi, tártaro e xhosa (!). Somente a Bíblia é mais traduzida e com um número maior de publicações. O mistério perdura: como alguém pôde se comunicar com eras, espaços e culturas tão afastados de seus próprios? Quando o primeiro conjunto de peças de Shakespeare foi publicado em 1623, o poema de Ben Jonson já prenunciava a atemporalidade do dramaturgo, com o famoso verso: ‘‘Ele não era de uma época, mas de todos os tempos.’’
Além das boas traduções em português (ver quadro nesta página), ‘‘Shakespeare - Poeta e Cidadão’’, de Victor Kiernan (Editora Unesp), e um reedição ‘‘Sobre Shakespeare’’, de Northrop Frye (Edusp), chegam às livrarias. O primeiro é indispensável para conhecer o cidadão inglês e toda sua obra. Kiernan caminha com desenvoltura entre a análise dos textos e das tensões políticas e sociais da época. Tragédias, comédias e sonetos são analisados sem o jargão de especialista. Já o escritor Northrop Frye transpôs várias de suas palestras sobre algumas peças para o livro. A esgrima verbal do autor surpreende, tornando a leitura rápida. ‘‘Antônio e Cleópatra’’ e ‘‘A Tempestade’’ estão entre as peças analisadas.
Kiernan alega que muitos estudiosos se contradizem ao analisar o legado do dramaturgo inglês. Com relação à política, enquanto alguns sustentaram seu total desinteresse pela vida coletiva, outros lhe atribuíram arraigadas convicções. Há também especulações e juízo de valor sobre o que ele escreveu. ‘‘Em seu tempo não havia linhas divisórias claramente delineadas, muito menos programas estabelecidos, a não ser em relação a alguns assuntos da Igreja e de política externa’’, destaca o especialista.
Na Inglaterra elisabetana, não havia dois ‘‘lados’’. Shakespeare pertenceu a um período de transição, no qual uma ordem antiga e seu modo de vida estavam desmoronando. Havia uma convivência entre a história e a mitologia, a magia e a ciência, a teologia e a razão.
O foco sobre a obra do dramaturgo dada por Northrop Frye e Victor Kiernan recai sobre o poeta em seu tempo, sobre o panorama da sociedade e da arte no qual ele estava inserido. As peças são analisadas e interpretadas sob diversos ângulos. No livro ‘‘Sobre Shakespeare’’, o autor faz interligações com situações de outras peças, assim como relata a intrincada genealogia da realeza inglesa da época.
Homens e mulheres se puseram a investigar quase todos os aspectos da vida e obra de Shakespeare, pondo luz sobre os assuntos mais esquisitos. Pesquisadores, com muito tempo disponível, escreveram livros sobre os corvos, os pássaros e os cachorros de Shakespeare. Durante quatro séculos, historiadores revolveram os fatos que antecederam à vida do dramaturgo e sua curta existência.
Vários personagens se tornaram tão reais que alguns críticos falam deles como se tivessem existido na história. A casa de Julieta é hoje em dia uma atração turística em Verona, podendo-se até contemplar o balcão onde Romeu subira. Literalmente, todos os personagens de suas peças são meticulosamente dissecados, psico e sociologicamente. Cada ação e intenção deles é estudada detalhe a detalhe. Os dramas históricos são verdadeiros tesouros arqueológicos da vida inglesa e essas peças abriam um caminho para a compreensão da sociedade daquela época.
Stratford-upon-Avon - cidade natal de Shakespeare - era, sob muitos aspectos, inerte, simplória e paralisada. Esse fato, somado ao casamento com uma mulher mais velha e geniosa, fez com que seguisse para Londres, por volta de 1589. Começou a carreira de escritor aos 26 anos.
Por volta de 1600, ele era o autor mais popular da Inglaterra, se tornou acionista de um teatro com direito a 10% dos lucros. Shakespeare era integrante da primeira geração européia de um teatro de características comerciais, onde o entretenimento ficava por conta de profissionais. As províncias tinham teatros regulares, além das companhias andarilhas. Ele escreveu para qualquer um que se sentisse inclinado a pagar alguns centavos para assistir a um espetáculo.
Shakespeare na tela, no palco, ou em livro ainda é fonte de inspiração, não só para Hollywood, mas também para as telenovelas brasileiras. Aguinaldo Silva, autor de ‘‘Suave Veneno’’, bebe diretamente no gargalo da peça ‘‘Rei Lear’’. As três filhas que disputam a fortuna do pai é um tema bastante recorrente. ‘‘O início de ‘Suave Veneno’, inspirado em Shakespeare, tem o propósito de refletir sobre a sociedade de hoje, onde as pessoas são substituídas mais cedo em suas vidas. Waldomiro (José Wilker) é mais novo do que o ‘Rei Lear’, mas ambos têm de enfrentar dramas semelhantes’’, analisa Aguinaldo Silva.
A história de ‘‘Romeu e Julieta’’, invariavelmente, é tema de quase todas as telenovelas. Antes mesmo dos autores repetirem a história do amor impossível dos jovens de Verona, e antes do autor escrevê-la entre 1594 e 1596, a história do casal era bem conhecida e popular na Inglaterra.

mockup