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William Blake: um profeta entre o bem e o mal

Nova antologia “Visões” reúne 11 livros do escritor inglês, é a maior publicação do autor já lançada no País Nova antologia “Visões” reúne 11 livros do escritor inglês, é a maior publicação de sua autoria já lançada no País

Marcos Losnak
Marcos Losnak

Você pode não conhecer a obra de William Blake, mas com certeza, em algum momento, já trombou com alguma referência à sua poesia e suas pinturas. O escritor inglês é citado em centenas de filmes, livros, músicas, séries, quadrinhos, games e muito mais.

Uma ótima oportunidade para conhecer a literatura de William Blake (1757 – 1827) está em “Visões”, livro que acaba de ser lançado pela editora Iluminuras com tradução de José Antonio Arantes. Trata-se da maior e mais ampla antologia da obra de Blake publicada no País.


O volume bilíngue reúne 11 livros de Blake publicados entre 1789 e 1795: “Canções de Inocência”, “Canções de Experiência”, “O Matrimônio do Céu e do Inferno”, “O Livro de Thel”, “Visões das Filhas de Álbion”, “Améria, uma Profecia”, “Europa, uma Profecia”, “A Canção de Los”, “O Livro de Urizen”, “O Livro de Ahania” e “O Livro de Los”.


Em sua obra, Blake sempre procurou desvendar a alma humana através do eterno conflito entre o bem e o mal, entre o pecado e a inocência. Nesse processo transformou a natureza em verdade espiritual. Embora tenha sido um grande admirador da mitologia bíblica, criou uma mitologia própria, mística, utópica e apocalíptica.


Em seu livro mais conhecido, “O Matrimônio do Céu e do Inferno”, apresenta o bem e o mal como as duas faces de uma mesma moeda. Defende que, sem um dos lados, o mundo não existiria. E que a dicotomia entre corpo e alma precisa ser eliminada para que a existência respire com plenitude.


No livro estão presentes os famosos “Provérbios do Inferno” onde são encontradas frases como: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”; “O verme perdoa o arado que o corta”; “Todo alimento sadio se colhe sem rede nem laço”; “Um cadáver não revida agravos”; “Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordeis, com os tijolos da Religião”; “Se os outros não fossem tolos, seríamos nós”; “Orações não aram! Louvores não colhem!”; “A raposa culpa a armadilha, não a si mesma”.

 

William Blake numa aquarela de Thomas Phillips: poeta afirmava ter visões desde os 4 anos
William Blake numa aquarela de Thomas Phillips: poeta afirmava ter visões desde os 4 anos | Reprodução
 


Desde criança Blake afirmava que tinha visões. Com 4 anos de idade viu Deus na janela do quarto. Aos 8 anos viu vários anjos empoleirados numa árvore. Aos 14 viu os profetas bíblicos caminhando pelos arredores de Londres. Visões que também o acompanharam por toda a vida adulta e influenciaram fortemente sua poesia e sua pintura.


Os versos presentes em “Visões” deslocam o leitor para uma experiência única. Uma espécie de universo paralelo que dialoga com a realidade através da emoção fantástica, não através da razão. Ideias são transformadas em profecias. Profecias são convertidas em atmosferas. Atmosferas são transformadas em visões. E visões dão origem a entidades místicas e mitológicas que frutificam ideias.


Nascido em 1757, em Londres, Blake atuou toda a vida como tipógrafo, gravador e aquarelista. Imprimiu ele próprio grande parte de seus livros. Entre seus trabalhos como gravurista, destacam-se as imagens que criou para o texto bíblico “O Livro de Jó” e para “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Falecido em 1827, foi sepultado em cova coletiva em Londres.


FRAGMENTO

Encontrava-me eu numa Tipografia do Inferno, & vi o método pelo qual se transmite conhecimento de geração em geração.


Na primeira câmara, havia um Homem-Dragão removendo detritos da entrada da caverna; dentro, vários Dragões escavavam a caverna.


Na segunda câmara, havia uma Víbora enrolando-se em torno de uma pedra e da caverna, e outras adornando-a com ouro, prata e pedras preciosas.


Na terceira câmara, havia uma Águia com asas e penas de ar: tornava ela infinito o interior da caverna; ao redor, inúmeros homens semelhantes à águia erigiam palácios nos imensos rochedos.


Na quarta câmara, havia Leões de chamas flamantes rondando furiosos & fundindo metais em fluidos candentes.


Na quinta câmara, havia formas Inonimadas, que lançavam os metais espaço adentro.

Lá eram recebidos por Homens que ocupavam a sexta câmara, assumiam a forma de livros & eram dispostos em bibliotecas.

(Trecho de “Uma Visão Memorável” que integra “Visões” de William Blake)


 

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. | Divulgação
 

Serviço:

“Visões”

Autor – William Blake

Editora – Iluminuras

Tradução, introdução e notas: José Antonio Arantes

Páginas – 428 (edição bilíngue)

Quanto – R$ 109

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