Wilde põe em xeque a sexualidade de Shakespeare
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sexta-feira, 26 de julho de 2002
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Em abril, a exibição de um quadro pintado no fim do século 16, retratando um jovem com rosto lânguido e longo cabelo entrelaçado, provocou grandes discussões em Londres. A figura de um rapaz aparentando entre 17 e 20 anos, usando batom e brinco duplo, foi identificada como a de Henry Wriothesley, conde de Southampton e mais conhecido como patrono de William Shakespeare. O que acalorou as conversas foi a identificação do mancebo como provável inspirador dos sonetos escritos pelo bardo, nos quais há inúmeras referências a um ''jovem loiro'', tratado ambiguamente de ''senhor-senhora de minha paixão''. O livro de sonetos, aliás, publicado em 1609, é dedicado a um certo H. W.
O assunto vem sendo estudado desde a edição dos poemas, com diversas especulações a respeito desse amor proibido de Shakespeare. Mas foi em 1889 que a discussão tomou proporções mais sérias, com o lançamento de ''O Retrato do Sr. W. H.'', texto que se situa entre ensaio e conto, que o irlandês Oscar Wilde (1854-1900) publicou naquele ano. A revolta justificava-se por uma forte razão: Wilde criou dois personagens que discutem a misteriosa origem de um quadro de um jovem, que acabam deduzindo ser o de W. H., ator que se transformou na paixão de Shakespeare. Mais que o assunto, o que mais irritou os intelectuais ingleses foi a artimanha de Wilde, que esmiúça a paixão do autor de ''Hamlet'' para oferecer à própria homossexualidade uma explicação superior, espiritual.
''O Retrato do Sr. W. H.'', que teve apenas uma versão publicada no Brasil (em 1994, pela Nova Fronteira), é o principal interesse de ''Os Retratos de Oscar Wilde'' (280 páginas, R$ 35), que a Nova Alexandria lança nesta semana. O volume é complementado pela principal obra do escritor, publicada em 1891: ''O Retrato de Dorian Gray''.
A especulação sobre o misterioso sr. W. H. foi lançada justamente no momento em que se valorizavam os esforços para apagar qualquer vestígio de dubiedade nos sonetos de Shakespeare. Assim, a versão que circulava na época excluiu oito poemas e trocou os pronomes masculinos por femininos em todo caso que levantasse suspeita de amor não heterossexual.
A obra surgiu quando, aos 35 anos, Wilde já tinha publicado a maior parte da sua poesia e dos seus contos. Amargo crítico da sociedade, escritor extravagante, autor de frases maldosas mas lapidares (salões inteiros se esforçavam para não perder uma só palavra de seus lábios), ele utilizou a história como um álibi, o que a sociedade vitoriana em que vivia considerou provocatória. Segundo Aníbal Fernandes, responsável pela tradução e autor do prefácio, o texto provocou celeuma justamente pela hipótese leviana de seu teor ambíguo. Citando Frank Harris, um dos biógrafos do escritor, ele escreve que, ''pela primeira vez, Oscar Wilde dava aos seus inimigos a arma de que eles precisavam e usaram infatigavelmente e sem escrúpulos, com o feroz deleite dos que odeiam''.
Trata-se de um texto singular, conduzido à maneira de uma ficção policial -dedutiva. ''O Retrato do Sr. W. H.' coleciona créditos e nega-os depois, deixando sistematicamente em falso um último elo da cadeia dos fatos'', comenta Fernandes. ''A dúvida e a indecisão garantem a Oscar Wilde o triunfo da partida.''
Apontado como uma espécie de rascunho para o que expressaria depois com uma universalidade única em ''O Retrato de Dorian Gray'', o conto/ensaio sobre o sr. W. H. apresenta as primeiras qualidades que, no futuro, vão ao mesmo tempo imortalizar e condenar Oscar Wilde.


