WILDE PASSADO A LIMPO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de agosto de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Oscar Wilde, poeta e dramaturgo, morreu em novembro de 1900, envelhecido, empobrecido, desiludido da vida e dos homens. Foi um dos brilhantes personagens de seu tempo, ousou o quanto pôde mas a conta que pagou por isso foi vilipendiosa homossexual assumido, foi preso e condenado a três anos de trabalhos forçados. Se pudesse voltar à vida, como olharia para os acontecimentos de um século atrás?
O ator e dramaturgo Maurício Souza Lima assumiu corajosamente essa proposta e escreveu a peça Com Amor, Oscar Wilde, onde o escritor é o único personagem que desperta de seu sono eterno, e vê a turbulência que o arrastou ainda moço para o desespero, a revolta e a morte. A peça tem estréia nacional hoje no Guairinha, às 21 horas, com Souza Lima vivendo Wilde e Perry Salles na pele do sr. Queensberry; Erom Cordeiro é Alfred Douglas. Direção de Ivone Hoffmann.
A queda de Wilde, acostumado aos mais finos salões londrinos, se deu pelo envolvimento amoroso com o jovem Alfred Douglas. Ao saber do relacionamento homossexual o Marquês de Queensberry, pai de Alfred, inicia uma perseguição implacável para levar o escritor às barras do tribunal. O escândalo é acompanhado com avidez pela sociedade, e a vingança só se concretiza com a pena dos trabalhos forçados.
A história apontou o amante como o vilão dos acontecimentos, mas Souza Lima defende a idéia que quem realmente desencadeou a fieira de dissabores foi o marquês. Este afirmava que o filho se enredara na trama pela lábia do intelectual devasso. A revolta sobre a situação tinha, por detrás, um elemento decisivo o filho mais velho de Queensberry dera sinais de tendências homossexuais. Tal foi a pressão sobre o moço que este se suicidou.
A tragicidade dos acontecimentos chamou a atenção de Souza Lima quando ele estava cursando faculdade de artes cênicas, há 10 anos. Começou então a colher material sobre o autor de O Retrato de Dorian Gray, criou um vasto arquivo e quando sentou-se para dar esboço a um monólogo, os demais personagens forçaram a entrada em cena. Maurício garante que foi contra sua vontade que eles passaram a ganhar espaço e invadiram a peça, posicionando-se em seus nichos devidos.
Com Amor, Oscar Wilde tem uma narrativa que não segue dentro de uma ordem cronológica. Passado e presente dos últimos 13 anos da vida do artista são mostrados aleatoriamente, como também a sua interferência na narrativa, apontando ao público os acontecimentos de 100 anos atrás. O autor faz um perfil do escritor:
O meu Wilde é pressionado o tempo todo. Tem cenas dele vivendo relativamente bem com a família, quando está prestes a conhecer Alfred; há um tom de leveza proposital para confrontar com o que vem depois, que é pesado, é a pressão. É impossível fugir dela. Enfim, era um cara que tinha liberdade, nome, fama, capacidade e uma enorme cultura que foi reduzido a prisioneiro comum de cela, obrigado a trabalhos forçados. A pressão está no espetáculo, mas poeticamente colocada. Não existe realismo a ponto de mostrá-la física, porque na verdade ele está conversando com o público, já passou por tudo isso. Oscar Wilde repensa a vida dele, do que aconteceu, mas com leveza de quem está 100 anos depois. Ele pede ao público que reveja junto com ele essa posição.
O cenário de Rosa Magalhães (também responsável pelos figurinos) divide-se em três espaços: a casa de Oscar, onde a existência supunha-se mais serena; o hotel, que representa a sua vida extra-conjugal e o restante do palco, desenhado pela iluminação, dá o tom da dimensionalidade dos fatos. Oscar Wilde conversa com o público, ele é a energia, a centelha que foi essa pessoa dezenas de anos atrás, explica Lima.
Seu opositor está ali, na pele do ator Perry Salles, que até os 30 e poucos anos também bebia e destilava o velho preconceito sexual. Mudou o pensamento, a forma de ver o homossexualismo: É uma coisa humana, natural, que vem dos deuses. Assim como ele, também outros sofreram essa evolução, acredita. Uma pesquisa apontou que 52% da população brasileira aceita o homossexualismo e 48% é contrária. Mas não sei até onde esses 52% tem um percentual de hipocrisia.
Meu personagem é um fascista, um déspota, ele define. É justamente este conservador, este macho que acredita que a respeitabilidade, a nobreza, a hombridade não podem sofrer deslizes. O propalado retorno aos palcos, não é visto sob essa ótica pelo ator. Não estou propriamente voltando aos palcos. Eu vivi esses anos todos sob um palco, esclarece.
Literalmente: em Salvador ele construiu o Teatro Gambôa complexo artístico que se une a galeria de arte e cinema , casa de espetáculos com palco giratório e tudo a que tem direito. É o terceiro que construiu em sua vida nestes 40 anos de carreira. Sob o palco está a sua casa. Ali passou os últimos quatro anos, num auto-exílio tentando colocar em cena algumas idéias, como uma montagem da descoberta do Brasil e outra sobre Glauber Rocha. Faltou patrocínio para ambas.
Estava em meio a uma crise de decepção com a política cultural quando recebeu o convite de Maurício Souza Lima para o espetáculo. Foi obra dos céus, acredita Maurício. Numa conversa com Vera Fischer deu-se o estalo de procurar Perry (ex-marido da atriz, com quem foi casado durante 16 anos). Este leu o texto, apaixonou-se e trocou os 30 graus reinantes em Salvador pelos 3 graus de Curitiba na madrugada com muito prazer.
Esta não é uma peça maniqueísta. Ela não quer exaltar, mas mostrar realisticamente quem é Oscar Wilde, o que ele fez, o devasso que ele foi e assumiu, comenta Salles. Ao mesmo tempo em que é devasso, é também um ser humano às voltas com seus conflitos, e esses conflitos são jogados na nossa cara. Nada é escondido, nada é feito com o intuito de entronizá-lo, de endeusá-lo. Mas, sim, mostrar um homem com todas as suas virtudes, principalmente os seus defeitos.
Perry Salles leva em conta a honestidade do autor em fazer um retrato realista de Wilde, deixando para o público julgar seus procedimentos, através de um texto poético, bem escrito. Esse é o aspecto do criador. Como realizador ele me encantou com a preocupação em dotar a companhia de profissionais de reconhecida competência, como Ivone Hoffman na direção, Aurélio di Simoni na iluminação, além de Rosa Magalhães nos cenários e figurinos. Vamos apresentar um belo trabalho como a platéia merece, aposta.
A dobradinha Maurício Souza Lima-Perry Salles é resultado da mão do universo, como afirma o ator e dramaturgo. Sou um cara cheio de fé, cada vez tenho mais fé, professa Maurício. A caminhada para chegar a Queensberry levou, no mínimo, um ano e meio. Mesmo não sendo o protagonista, é um personagem importantíssimo no espetáculo. Queríamos homens de peso, pessoas que tivessem a ver com a cena. Os atores foram convocados como diamante, cada um que chegou era um diamante já lapidado, de altíssimo quilate para fazer parte desse espetáculo.
Todo esse preparo meticuloso tem uma passagem até na história do patrocínio. Souza Lima mandou seu projeto para a Telepar Brasil Telecom, concorrendo com centenas de outras propostas de todo o País. Foi aprovado. Tenho que fazer reverências muito profundas à empresa, porque ela acreditou em mim. Aliás, coloquei no meu projetinho que acreditar em Maurício Souza Lima era acreditar numa dramaturgia nascente. A Telepar Brasil Telecom apostou nisso, saiu do vício comum de contemplar sempre os mesmos autores, as mesmas pessoas, nas mesmas cidades.
Respondendo ainda pela produção ele confessa sua certeza de que este espetáculo está sob a égide do universo. Tem vários anjos encaminhando as coisas para que elas aconteçam na santa paz e lindamente, como efetivamente estão acontecendo.
Com Amor, Oscar Wilde, de Maurício Souza Lima. Direção de Ivone Hoffmann. Com Maurício Souza Lima, Perry Salles, Renata Versari, Erom Cordeiro, Silvio Pzzato, Marcus Toledo, Adolfo Pimentel e Diego Avelleda. Até dia 20 no Guairinha. De quinta a domingo, às 21 horas. Ingressos a R$ 20,00, R$ 15,00 (bônus), R$ 10,00 (classe e estudantes). No dia 20, a entrada será um quilo de alimento não perecível.


