Western B em Marte
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de fevereiro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Somente o culto incondicional (e exagerado, diga-se) que os europeus rendem ao bom diretor John Carpenter explica a premiSre mundial que Fantasmas de Marte (confira a programação de cinema na página 2) teve fora de concurso no último Festival de Veneza. Cineasta de trânsito interessante através do fantástico (o primeiro Halloween, O Enigma de Outro Mundo como refilmagem de A Coisa e Fuga de Nova York são legítimos exercícios de estilo), Carpenter, embora sempre fiel à sua formação cinéfila e ao espírito libertário do sistema do filme B b de budget, orçamento em inglês, filmes de baixo custo, gêneros diversos e não qualitativamente inferiores, surgidos em Hollywood em fins dos anos 50 anda perdendo a inspiração e tropeçando na própria fama de cineasta cult. Exemplo mais recente é este John Carpenters Ghosts of Mars, assim mesmo, imodestamente batizado no original.
O ano é 2.176 d.C. Superpovoada, a Terra utiliza Marte como colônia onde vivem cerca de 700 mil pessoas que trabalham e exploram os recursos naturais do planeta vermelho. Uma dessas explorações descobre uma ameaça mortífera: as almas de uma antiga civilização estão tomando os corpos dos humanos colonizadores. No confronto entre a lei terrestre personificada pela veterana tenente Melanie Ballard (Natasha Henstridge, de Belladona) e os fantasmas marcianos com visual pós Alice Cooper, Carpenter prepara e ministra à platéia um coquetel com doses equivalentes de ficção-científica, terror e western. Não se surpreenda o espectador se algumas sequências evocarem Rio Bravo, de Howard Hawks, ou Duelo de Titãs, de John Sturges, ou ainda Galante e Sanguinário, de Delmer Daves. Ou ainda se houver reminiscências de Os Doze Condenados, de Robert Aldrich, um autêntico western disfarçado de filme de guerra.
Pena que não se reencontrem em Fantasmas de Marte algumas preocupações de Carpenter como a contaminação, a doença num universo enclausurado, o não conformismo e a disposição de contestar a ordem estabelecida faltou explorar melhor o fato de Marte ser uma colônia matriarcal. E como em todo exemplar da série B, os personagens não são nada matizados vale dizer, se movem física e psicologicamente com a graça e a delicadeza de um paquiderme numa loja de porcelanas chinesas. O visual e o sonoro, por sua vez, são quase puro trash: a trilha, como de hábito assinada por Carpenter, substitui o quase minimalismo de sempre pela estridência eletrônica.


