Brasília, 02 (AE) - Em seu segundo mandato, o ministro da Cultura, Francisco Weffort, está certo de que a crise não afetará os investimentos no setor. Ele anunciou hoje um aumento de 25% no orçamento para a área e calculou em R$ 250 milhões a aplicação global em projetos neste ano. Mas Weffort admite a necessidade de estimular ainda mais a cultura e a educação, capazes, segundo ele, de preparar melhor o cidadão para enfrentar períodos de instabilidade. Pergunta - O que está mudando na estrutura do Ministério e qual o objetivo da iniciativa? Francisco Weffort - As secretarias do Ministério passam a ser definidas pelo segmento cultural a que se dedicam. Serão quatro secretarias, de audiovisual (José álvaro Moisés), de livro e leitura (Ottaviano de Fiore), de música (Joatan Vilela Berbel) e uma de patrimônio, museu e artes plásticas (Otávio Alves de Brito). Estou querendo criar uma assessoria especial de artes cênicas. Essa estrutura é mais transparente e permite maior equilíbrio na análise de projetos. Pergunta - Quanto o governo disporá este ano para investir em cultura? Weffort - Não temos os últimos detalhes do orçamento, mas neste ano temos um crescimento de algo perto 25% em relação ao ano passado. Se somarmos o que é do orçamento direto com a dedução tributária, estaremos perto de R$ 500 milhões. Cerca de 50% disso é para investimento. Pergunta - Com a crise econômica no Brasil, surge a preocupação de que haja um recuo do incentivo empresarial à cultura, apesar da dedução no Imposto de Renda. Weffort - Esse receio existe sempre, porque as leis Rouanet e do Audiovisual são novas. Mas o uso dessas leis tem aumentado. A crise não tem o impacto que as pessoas imaginam. A minha expectativa é de que não haja recuo. À medida que a crise acirra a competição, o marketing fica mais importante para a empresa. Pergunta - Quanto as empresas investiram no ano passado? Weffort - No ano passado, a dedução tributária somada chegou a algo perto de R$ 115 milhões, mas isso é a metade do investimento realmente feito, porque isso é dedução tributária. Não inclui o outro tanto que a empresa investe para realizar o projeto. Pergunta - Ainda sobre a crise, como a educação e a cultura podem preparar um povo para enfrentar esse tipo de situação? Weffort - A pessoa mais culta, mais educada, qualifica-se melhor para trabalhar e para exercer sua cidadania. Um sujeito com mais educação e cultura é mais capaz de disputar empregos em áreas diversas, ou seja, não fica amarrado a uma aprendizagem profissional restrita. Pode reciclar-se com mais rapidez. Pergunta - A cultura cria empregos? Weffort - Temos um estudo mostrando que a cada R$ 1 milhão investido em cultura são criados160 empregos diretos e indiretos. O que governo federal e os Estados e municípios aplicam é apenas 10% do PIB da cultura. A idéia de que a cultura só se desenvolve quando o governo põe dinheiro é errada. O governo só empurra para a frente. Estima-se que 550 mil pessoas estão trabalhando na cultura no Brasil, o que não é pouco. Pergunta - Mas o brasileiro, em geral, é pobre, não tem tempo nem recursos para o acesso à cultura. Weffort - É tempo de restaurarmos nas escolas o ensino de artes, de música. De estimular as festas religiosas e cívicas. É importante que, pelo sistema escolar, possamos difundir o talento do povo brasileiro. Aí se começa a criar um cidadão. Temos também de ampliar a distribuição de livros. O próprio jornal O Estado de S.Paulo aumenta sua tiragem entregando obras clássicas da literatura brasileira a um preço extremamente barato para o leitor. Isso é uma coisa importantíssima do ponto de vista da cultura brasileira. A televisão deve assumir as funções educativas e culturais que ela tem. É mentira dizer que o povo deseducado e inculto só aceita programas de baixa qualidade.

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