Tel Aviv - Apesar da pressão de Roger Waters, astro do Pink Floyd, e do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel, Milton Nascimento fez um show em Tel Aviv no domingo (30). "Shalom, Tel Aviv", disse o músico para um público de cerca de 2.000 pessoas. Ovacionado, ele não falou sobre política durante o show de duas horas.

Numa carta (veja abaixo), Waters cobrava a reação de Milton a apelos que ele cancelasse a passagem de sua turnê por Israel. No sábado (29), Milton divulgou uma resposta nas redes sociais.

"Pouquíssimas vezes declinei de um convite. Afinal de contas, todo artista deve ir aonde o povo está, não é mesmo?", escreveu Milton, depois de visitar Jerusalém. "Durante a ditadura, eu jamais deixei de tocar no meu país. Então, por que eu deixaria de tocar agora? Por que deixaria de compartilhar experiências de amor e mudança enquanto acontece no Brasil um governo de extrema direita?"

Em 12 de junho, o BDS publicou um pedido público em sua página na internet com o título "Milton: a voz que vem do coração diz não ao apartheid". A ONG lembra que o cantor Caetano Veloso anunciou que nunca mais tocaria em Israel.

O BDS também diz que, em 2018, Gilberto Gil cancelou um show em Tel Aviv.

Nas redes sociais, Milton Nascimento havia respondido a Waters no sábado: "  Todo artista deve ir aonde o povo está, não é mesmo?"
Nas redes sociais, Milton Nascimento havia respondido a Waters no sábado: " Todo artista deve ir aonde o povo está, não é mesmo?" | Foto: A.Paes/ Shutterstock.com
Roger Waters enviou carta a Milton e também ao movimento Boicote numa campanha para que o brasileiro cancelasse o show
Roger Waters enviou carta a Milton e também ao movimento Boicote numa campanha para que o brasileiro cancelasse o show | Foto: James Jeffrey Taylor/ Shutterstock.com

A carta de Waters

O músico Roger Waters tinha enviado carta ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), que promoveu uma campanha para que Milton Nascimento cancelasse seu show em Israel no domingo, explicando que teria enviado carta ao brasileiro, mas não obteve resposta.

Em Portugal, onde Milton se apresentou na semana passada, um pequeno grupo fez protesto diante da casa de shows com bandeiras da Palestina pedindo que o músico cancelasse sua apresentação em Tel Aviv, mas isso não aconteceu.

Leia a carta de Roger Waters:

"27 de junho de 2019

Quando estive no Brasil no ano passado, fui apresentado ao lendário músico brasileiro Milton Nascimento, e bebemos algumas belas cachaças juntos. Quando li que ele estava planejando cruzar a linha de piquete do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), para se apresentar em Tel Aviv, fiquei chocado. Eu escrevi para Milton pedindo uma oportunidade de falar com ele. Nem ele nem ninguém de sua equipe me respondeu.

Estou com peso no coração. Eu queria falar com Milton sobre amor, morte e música. Amor por todos os nossos irmãos e irmãs em todo o mundo, independentemente de sua religião, ou etnia, ou nacionalidade, mas particularmente pelos palestinos e palestinas que buscaram artistas em todo o mundo para pedir ajuda, através de sua recusa em lavar a imagem do Estado de apartheid israelense, não se apresentando por lá.

Eu queria falar com Milton sobre morte. Eu queria perguntar a ele se ele tem filhos, e como ele se sentiria enterrando um deles após um abate casual perpetrado por um exército de ocupação. Eu queria falar com ele sobre música, e sua profunda obrigação moral como eminente músico de evitar que sua música seja utilizada para lavar o apartheid com arte.

Milton escolheu caminhar pelo outro lado, ignorando o que Angela Davis chama de indivisibilidade da justiça. Que pena.

Com amor,

Roger Waters"

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