Warner lança três preciosidades em vídeo e DVC2/Mar, 15:49 Por Luiz Carlos Merten São Paulo, 02 (AE) - Três preciosidades da Warner Home Video são lançadas pela empresa em versões simultâneas para DVD e vídeo. Na verdade, já existiam nas locadoras, mas agora estão saindo em sell thru, a venda direta para o consumidor. Some-se a isso o tríplice lançamento em DVD - os três nesta primeira quinzena do mês - e está feita a festa dos cinéfilos. Mesmo que o vídeo seja uma mídia condenada e, como o vinil foi substituído pelo CD, também venha a ser superado pela massificação do DVD, são daquelas obras que valem ter numa videoteca. Só que, para ser moderninho, você tem de pensar agora numa deveteca, também. "Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas", "Os Eleitos" e "Uma Rua Chamada Pecado". A obra-prima de Arthur Penn, um clássico de Elia Kazan e, entre os dois, o melhor filme de Philip Kaufman. Todos em edições de DVD enriquecidas por comentários de produção, menu interativo e índice para escolha de cenas. "Os Eleitos" também ganhou trilha sonora remasterizada e a versão de "Uma Rua Chamada Pecado" é do diretor, com três minutos a mais em relação à montagem da cópia distribuída nos cinemas nos anos 50. São imagens condenadas pela rígida censura de Hollywood na época. Nada de sexo explícito, apenas sugestões e diálogos que foram considerados muito fortes para o cinema americano da época. Há uma ponte que vai de ... "E o Vento Levou", de Victor Fleming, no fim dos anos 30, até "ET", de Steven Spielberg, no começo dos anos 80. Dois filmes sobre o tema da volta ao lar, tão caro aos diretores americanos. Há outra ponte entre ... "E o Vento Levou" e "Uma Rua Chamada Pecado". A Blanche Dubois de Vivien Leigh descende da Scarlett O'Hara interpretada pela mesma Vivien Leigh. A beldade sulista do clássico de 1939 vira a mulher decadente, pateticamente sedutora do outro clássico, de 1951. Antes de virar filme, "Uma Rua Chamada Pecado" foi peça de sucesso que o próprio Kazan dirigiu no palco. É um dos melhores textos de Tennessee Williams. No original, chama-se "A Streetcar Named Desire - Um Bonde Chamado Desejo". Como tal foi encenada no País. No cinema ganhou outro título, e não se pode dizer que seja dos mais inspirados. Blanche, a degeneração da beldade sulista Scarlett, diz lá pelas tantas que precisa viver da caridade de estranhos. Blanche também diz que não quer realismo, quer magia. É uma das grandes personagens femininas que já viram a cena neste século e a atuação espetacular de Vivien está entre as três ou quatro melhores registradas por uma câmera. Camisetas - Blanche vive com a irmã, casada com o brutal Kowalski. Com sua força e sensualidade, ele destrói o frágil mundo de sonhos em que ela se refugia. Se Vivien é uma Blanche brilhante, Marlon Brando não é menos emblemático como Kowalski. As T-shirts que ele usa, moldando os músculos, causaram forte impacto na época. Brando era um deus, Kazan, que naquela época iniciou seu triste envolvimento com o macarthismo, já era um autor preocupado em mostrar na telas as emoções humanas, as paixões que se recusam a ser reprimidas. "Bonnie e Clyde" é de 1967. Arthur Penn estava no auge e hoje o leitor jovem, acostumado a James Cameron e cia., talvez se pergunte - Arthur quem? Penn, um dos grandes, senão o maior diretor americano dos anos 60. Ele ainda entrou grande pelos anos 70, principalmente quando fez "Um Lance no Escuro", mas logo iniciou a decadência, uma das mais desconcertantes e vertiginosas de Hollywood. É um filme do tempo em que Penn fazia filmes para estabelecer a analogia entre o revólver e o pênis. Bonnie Parker e Clyde Barrow foram gângsteres americanos dos anos 30. Quando o filme começa, ela, interpretada por Faye Dunaway, está no auge da insatisfação. Sua atração é atraída por aquele ladrão, Clyde (Warren Beatty). Ele é impotente. Lançam-se numa espiral vertiginosa de roubos a bancos, experimentando, na excitação das armas e dos roubos, o prazer que ele não consegue oferecer a ela na cama. Viram ídolos do público, mitos. Penn narra sua história por meio de uma violência cômica embalada pela música de banjo. A partir da cena do milharal, o filme vira uma tragédia. Clyde consegue fazer sexo com Bonnie, mas a essa altura o sistema já fechou seu cerco sobre eles. É um raro e grande filme. Não perdeu nada de sua força. "Os Eleitos" é de 1983. Uma adaptação do livro-reportagem de Tom Wolfe sobre a apopéia da conquista espacial americana. Philip Kaufman mostra o programa Mercury, a preparação dos primeiros astronautas dos Estados Unidos, naquele tempo em que a União Soviética era uma potência e a conquista do espaço era uma guerra de propaganda entre os dois grandes inimigos. De um lado, os astronautas e suas mulheres. De outro, olímpico, solitário, o Chuck Yeager interpretado por Sam Shepard. O melhor piloto de sua geração, o mais hábil e corajoso, infelizmente pouco adequado para um programa que transformava os astronautas em máquinas manipuladas desde o centro de lançamento de Cabo Kennedy (que, na época, ainda era Canaveral). "Clair de Lune" - Momento sublime, de gênio: Chuck Yeager voa sozinho, no seu jato, mais alto do que qualquer outro homem já foi. Simultaneamente, Kaufman mostra seus antigos colegas astronautas numa convenção política no Texas. Um clone do ex-presidente Lyndon Johnson apresenta Miss Sally Ran. Surge a mulher envolta em plumas para fazer um strip-tease ao som de "Clair de Lune". Ela dança. Os astronautas trocam olhares entre eles - olhares que dizem tudo o que as palavras não transmitem. As plumas viram nuvens e aparece Yeager no seu avião. Você vai ver de novo quantas vezes quiser, favorecido por essa qualidade que o DVD tem de chegar mais rapidamente às cenas. A grandeza do cinema passa, com certeza, pelos eleitos de Kaufman. Serviço - "Os Eleitos" (The Rigt Staff). EUA, 1983. Direção de Philip Kaufman, com Sam Shepard, Scott Glenn, Ed Harris, Dennis Quaid, Fred Ward, Barbara Hershey, Kim Stanley, Veronica Cartwright, Kathy Bates e Jeff Goldblum. DVD e vídeo (sell thru). Colorido, 193 min. "Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas" (Bonnie & Clyde). EUA, 1967. Direção de Arthur Penn, com Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Estelle Parsons e Michael J. Pollard. DVD e vídeo. Colorido, 111 min. "Uma Rua Chamada Pecado" (A Streetcar Named Desire). EUA, 1951. Direção de Elia Kazan, com Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden. DVD e Vídeo. Preto-e-branco, 125 min. Lançamentos da Warner Home Video. Informações pelo fone 0800-11-5922, Preço médio: R$ 28