São Paulo, 15 (AE) - Quando "Perseguidor Implacável" irrompeu nas telas, no começo dos anos 70, desencadeou uma polêmica. Muitos críticos acusaram o diretor Don Siegel e o astro Clint Eastwood de terem ido longe demais, abusando da violência ao criar o personagem do detetive Harry Callahan, o Dirty Harry. O filme seria fascista por justificar a brutalidade do protagonista. Não é. "Perseguidor Implacável" é um thriller eletrizante e o melhor filme da série com o policial de São Francisco, que viveu mais quatro vezes na tela, sempre na interpretação do durão Eastwood.
Não apenas "Perseguidor Implacável", mas também o segundo filme, "Magnum 44", de Ted Post, estão sendo lançados em sell thru (venda direta para o consumidor) pela Warner Home Vídeo. Os fãs de Clint vão adorar - e os de Siegel, também. Foi o número um dos diretores B de Hollywood, construindo uma obra tão intensa quanto movimentada com personagens que têm todos a mesma característica: são homens capazes de ir ao limite da ação (e deles mesmos). Dirty Harry é uma dessas figuras emblemáticas do diretor.
É um começo duplamente perfeito: pelo que revela sobre os métodos do herói e do diretor. Basta uma perseguição para que Siegel defina Dirty Harry como homem de reflexos rápidos, um sobrevivente na selva da cidade. A cena também é prodigiosa pelo ritmo da montagem. Siegel formou-se na sala de edição da Warner antes de virar diretor. Trouxe para o seu cinema um domínio habilidoso da linguagem (e da ação). O filme arranca a 100 por hora e prossegue assim até o desfecho.
Na trama, Dirty Harry enfrenta um maníaco que comete assassinatos a esmo, armado com um rifle telescópico. Desta maneira, pressiona a prefeitura de São Francisco. Ao perseguir esse marginal que introduz o desequilíbrio num mundo assentado sobre uma ordem precária, o herói também inicia uma escalada na violência e na desobediência civil às leis que, teoricamente, pelo menos, deveria respeitar. Só que Siegel, sabendo disso, faz que Dirty Harry adquira uma consciência. No fim, ele joga sua arma a distância, enojado com a própria violência e consciente de que foi longe demais.
Logo em seguida, Dirty Harry empunhou de novo a Magnum, contribuindo para uma escalada de justiceiros nas telas que também inclui o Paul Kesey interpretado por Charles Bronson na repulsiva série "Desejo de Matar". Ao voltar à ação, Dirty Harry não o fez mais sob a direção de Siegel, que assinou apenas o primeiro filme da série. O segundo leva a assinatura de Ted Post, que havia feito o western "A Marca da Forca" com Eastwood.
Em "Magnum 44", gângsteres que haviam conseguido driblar a Justiça começam a ser assassinados em São Francisco. Investigando os casos, Dirty Harry descobre que há um grupo de justiceiros em atividade na cidade. São policiais que até o convidam a integrar-se ao grupo, participando das matanças, convencidos de que bandido bom é bandido morto. Numa cena, o diálogo faz referência ao Esquadrão da Morte existente, na época
no Brasil e que seria o modelo para esse outro fictício, focalizado por Post e Eastwood.
Não é um mau filme para quem gosta de narrativas de ação
bem conduzidas. Mas não tem as complexidades e sutilezas do original de Siegel. A partir desse segundo filme, Dirty Harry realmente foi ficando mais e mais facista. O próprio Eastwood adquiriu a fama de reacionário, que o perseguiu durante anos, até que ele conseguisse impor-se, em definitivo, como o grande diretor que é. (L.C.M.) SERVIÇO - "Perseguidor Implacável" (Dirty Harry). Colorido, 103 min. Magnum 44. Colorido, 126 min. As fitas estão à venda pelo preço médio de R$ 22, cada uma.

mockup