Wanderléa desabafa
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segunda-feira, 22 de junho de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Semana passada a cantora Wanderléa participou da gravação do programa de Agnaldo Rayol na CNT. Tomou um avião em Salvador, onde fizera um show no Pelourinho, e horas depois descia no Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Passou o dia no hotel, refletindo sobre os muitos Brasis que um único Brasil encerra. Apesar das múltiplas faces você sente a mesma ligação amorosa.
Foi no camarim do Ópera de Arame que Wanderléa fez seu desabafo de alegria e emoção. Não houve, realmente, uma entrevista, mas um encontro em que a artista pôde expor seu pensamento. A pressa que move as pessoas não permite que eu diga com todas as palavras aquilo que gostaria. Estão sempre me interrompendo, comentou sobre o contato com a imprensa. O relato da cantora:
Acho que ninguém mais sabe tanto do povo brasileiro do que nós, os cantores, que rodamos todo esse País. Nós conhecemos a cara do Brasil e é uma coisa tão bonita, tão forte que só se justifica com o que também sentimos por eles. Uma coisa linda, de você se sensibilizar e chorar de emoção: só ama o povo aquele que consegue chorar com ele na tristeza e na alegria. E o povo é sempre o mesmo: bonito, honesto, carinhoso, de uma afetividade muito linda.
Aliás, foi disso que falei quando estive numa visita ao Fernando Henrique Cardoso e a Dona Ruth, antes de ele ter sido aceito oficialmente pelo povo. Era uma reunião da classe, e foi sobre isso que abordei - essa coisa amorosa que o brasileiro tem. E que é muito importante que as pessoas que atuam e administram o nosso País tenham esse mesmo amor.
Ou deveriam ter. Seria necessário chorar por esta Nação; é o que o povo merece, pela sua própria grandeza. Se tivéssemos dirigentes com essa capacidade, seria tudo diferente. Pena que não tenhamos habilidade para isso. Se tivéssemos acho que seríamos administradores intensos, apaixonados.
Eu fiz o Brasil em seus extremos. Mudam-se os sotaques, mas o carinho é o mesmo; a família brasileira é a mesma. Eu me acho devedora de muitas coisas, até porque me sinto em outro estágio. Independente do último sucesso, do último hit, da última música na mídia, chega um momento como este em que a gente não tem mais a preocupação com aquele lobby, aquela política para estar dentro de uma engrenagem. A gente está é no coração das pessoas.
Quando chega um momento como este - de paz - a gente fala ué!. E relaxa, no bom sentido, porque a carreira é uma pressão a vida inteira. Para estar vivo, é importante que você esteja atuando, fazendo coisas novas. De repente você percebe que isso não é mais necessário: é como se sentir eterno dentro daquilo que faz. Aí já não existe mais a ansiedade que existia no início. Você só tem que agradecer.
Não estou falando com ego, com demagogia. É perceber que não precisa provar mais nada a ninguém e então você só quer mesmo é rasgar o coração, se estreitar nesse abraço, nesse encontro. É uma coisa bonita de Deus. Acho que poucos artistas vão perceber e sentir esse sabor. Infelizmente. Hoje as coisas são tão corridas e de certa forma tão comandadas pelos poderes que administram a música que não dá tempo de maturar isso.
Os sucessos são conduzidos, não se tem mais tempo de cozinhar, de costurar essa paixão que os artistas dos anos 50, 60 nem ao menos conduziram. De certa forma fomos agraciados com um tempo em que as coisas eram mais naturais e verdadeiras. Os artistas de hoje são muito hit, o sucesso da rádio é conduzido pelas gravadoras. Mas tenho certeza que muitos desses cartazes vão despertar para essa paixão da qual estou falando. Eles vão enfrentar um estádio lotado, sem preocupação com o faturamento. Vão olhar nos olhos do público, e quando perceberem a verdadeira afeição, fatalmente ficarão. A afeição é que eterniza - e o povo se engana por muito pouco tempo.


